Veterinária passa por assaltante


   13 de maio de 2010 008                                                 Decidi  postar um causo no site para trazer uma descontração, tanto para mim que escrevo como para os que aqui vem buscar alguma informação voltada aos animais de companhia. Além disso, contar situações pitorescas que me acompanham no cotidiano  também é uma das proposta com esse espaço. Estamos num mês onde as atenções estão voltadas para a Copa Mundial de Futebol, com isso me permito relaxar um pouco e trazer leveza para meu site. Não sou fanática por futebol – é dificil a televisão me prender por muito tempo – mas estou torcendo, óbvio, pelo meu país. E pela seleção da Argentina, pois  nasci bem na sua fronteira, tendo “los hermanos” em buenas lembranças de infância e adolescência. E gosto do jeito amalucado e guerreiro do Maradona. Ele tem me divertido nessa  lerdeza de inicio de inverno. Mas vamos ao causo em si: 

 JPG 064                                                    No mês de Março desse ano fui à Porto Alegre para rever familiares e ver alguns negócios que ainda estavam pendentes  em face da minha mudança para Zimbros - esse paraiso de belezas naturais e calmaria onde hoje vivo. Vim para cá com o objetivo claro de paz interna (e externa)  e  para tentar realizar um sonho que é escrever. Tenho meus outros livros em andamento, tenho meu site e outros projetos literários. A cidade grande não me oportunizava esse silêncio de dentro; e nem o de fora. E quem quer ler, estudar, pesquisar e escrever precisa disso como força motriz. Foi dificil tomar essa decisão pois gostava – e gosto – da atividade clinico-cirúrgica. Mas penso que para tudo há um tempo,  e esse tempo de correria profissional começou a me esgotar e cansar. Não me sentia mais com forças fisicas para desenvolver ambas as atividades, que eram o consultório, a escrita de meus livros e afins. Tive que escolher. E acho que acertei na escolha de estar em quase total silêncio, em meio a natureza plena, ao mar e junto à pessoas mais simples.

   Amoreira jpg                                                 Meu cotidiano hoje é leve, sereno e calmissimo. Cuido da minha pequena horta, das minhas ervas para meus chás e das minhas flores.  Estou aprendendo a mexer com a terra. Sempre cuidei de bichos – e cuido ainda – e nunca havia plantado uma árvore em meus 48 anos de vida. O máximo que fiz foi regar uma que meu pai estava plantando, há muitos anos atrás,  no jardim da nossa casa em São Borja. Lembro dele dizendo:  - “Plantamos em parceria uma árvore”. Que nada, quem sujou as mãos foi ele, o que fiz , como disse, foi molhar depois que ele fixou as raizes dela.

 Hoje posso dizer: plantei uma árvore. Há poucos meses atrás fixei as raizes de uma amoreira. E vingou! Está brotando devagarinho como pede a natureza. Folhas de amora é um bom hormônio feminino e como estou no climatério  minha mãe me disse que chá de folha de amora é bom para a menopausa. Não deu outra, plantei um pé de amora. Brinco com as minhas vizinhas que quando elas entrarem nessa fase da vida,  a árvore plantada por mim à frente da casa estará a disposição com sua folhas medicinais. Vejam,  como estou em pleno sossego aqui. Jamais conseguiria produzir em meus trabalhos e ainda cuidar das plantas, conversar com vizinhos, cuidar do meu próprio alimento, da minha saúde, dos meus bichos e cultivar amigos se ainda estivesse sob um ritmo de alto estresse como eu vivia em Porto Alegre. Respeito quem não consiga viver como hoje vivo. Mas cidade grande e tudo de negativo que ela traz,  para mim não serve mais. No máximo idas rápidas para tratar de trabalho e rever famiilares. Que é o que fui fazer em Março na cidade grande chamada Porto Alegre.

  fevereiro 2010 jpg 242                                                  Desde que vim morar  em Zimbros foi a primeira vez que voltava para lá, fiquei exatos seis meses  sem ir para a “cidade” -  como dizem os nativos daqui.  Salvo o turbilhão turistico que nos invade por aqui nos meses de Dezembro e Janeiro, tudo era uma calma sem fim em mim e ao meu redor. E lá fui eu para enfrentar a dureza do concreto. Como fiquei todo esse tempo sem aparecer por lá, precisei de alguns dias  para fazer tudo o que precisava – fiquei quase quatro semanas fora do meu paraiso,  que, carinhosamente,  chamo de  “meu Deus Zimbros”.  Minha mãe que me assessora na vida e nos meus trabalhos se deslocou de São Borja para Porto Alegre e passamos juntas esse periodo por lá. Ficamos no apartamento da minha irmã e do meu cunhado que passam o dia fora, trabalhando. Eles moram no bairro Bela Vista, local de certo poder econômico, posso dizer assim , fazendo com que as pessoas demonstrem uma aparência mais social. Eu me recusei a tirar minhas havaianas, minhas bermudas brancas e minhas camisetas básicas. Foram seis meses sem botar um sapato!  Chinelos e pé na areia direto!Minha mãe respeitou isso, minha irmã, por certo, achou estranho aquele jeito praiano que eu mantinha na cidade grande. E para completar uma mochila por bolsa. Apenas repetia para elas: – “ Nasci para ser livre em tudo! Vou ser o que quero ser. Chega de aparências!”  Embora me vestir “socialmente” nunca foi meu forte.

 Bueno, em meio a conversas sobre meus negócios com a minha mãe ( época de imposto de renda, fechamento geral de um ciclo de vida que tinha por lá, enfim, essas coisas que todos temos de fazer em nossas vidas) tive que fazer contatos com alguns clientes pois havia deixado alguns pacientes em final de tratamento comigo quando da minha vinda para Zimbros. Um deles o Nicolas, que está postado um caso clinico sobre o cão dele  aqui no site. 

Naquele dia que combinei com ele de ver o Cão ( nome do cão dele) acordei num cansaço mental intenso. Poucos dias por ali e comecei a sentir o estresse me pegando novamente. Comentei com a minha mãe sobre isso, que estava zonza  de tanto “fuzuê” a minha volta: trânsito intenso, barulhos, acertar pendências de negócios, parentes à volta, festa de aniversário de um familiar;  um monte de “social”, situações essas que minha cabeça já havia desconectado no mental. Só queria retornar para meu sossego e meus escritos. E  falei para ela: – “Só Falta o Nicolas vir de moto me buscar para ir ver o Cão.”  Ele é doido por velocidade, seja de carros ou motos. E tem mais de um carro, além de sempre estar trocando os mesmos.

   JPGE 33kb                                                 Toca meu celular e era ele: – ” E ai , Synara!?? Tô chegando ai, desce e me espera lá embaixo.”  Perguntei: – ” Tu não tá vindo de moto , né?? Ele deu a risada clássica dele e  respondeu que não, que estava de carro. Pensei: ” Que bom…não tô afim de  “voar” na garupa da moto do Nicolas hoje. Desci. Elevador, portaria, cumprimentei o porteiro e perguntei se tinha alguém a minha espera na frente do prédio. Ele  disse que ainda não. Nesse exato momento,  sigo em direção ao portão e estaciona um Audi preto. Eu de chinelos, bermuda, camiseta , mochila no ombro, cabelo preso,  com cara de sono e cansaço. Fui direto encontrar o Nicolas em seu Audi. Os carros hoje em dia têm essas peliculas negras e dificultam a visão plena de quem está dentro. Com todo meu lado despojado e amigo dos meus clientes já fui metendo a mão na porta da frente  para entrar. Foi meter a mão na fechadura para abrir a porta e senti que a mesma foi puxada para ser fechada novamente – e com força. Meti  a mão na fechadura de volta e puxaram de novo; e com tanta força que  quase ficou um dedo meu preso na porta, veio uma dor intensa, pois chegou a prender um pouco. Tudo ocorrendo em segundos de tempo. Com essa atitude de alguém não me permitindo entrar no carro, pensei que a  Desirrê – namorada do Nicolas – estava de brincadeira comigo. Foi então que percebi que era de quatro portas o Audi. Não deu outra,  meti a mão na porta de trás e fui entrando e dizendo: - ” E ai, gurizada, qual é?? “ Nisso vejos  dois pares de olhos em expressão de pavor voltados para mim e uma mulher gritando em desespero: ” É um assalto, fulano!! Segura a Mariana, ela vai pegar a Mariana!!! ” Olhei para o lado uma menininha  – de  três anos, mais ou menos - sentada no banco de trás. Retornei o olhar para frente e vi o cara levando a mão no console do carro – decerto iria pegar o celular ou uma arma, não entendi a ação dele, mas foi o suficiente para eu saltar do carro e dizer: ” Calma…fiiifiiquem calmos ( naquele momento o pavor passou a ser meu) eu sou Veterinária ..calma, não sou assaltante…sou Veterinária, é verdade…confundi vocês com um cliente…por favor, dessscullpeee, desculpemm. E a mulher a berrar: Socorro, assalto, assalto!! Nisso ouço uma voz: - ” Synarraaa!!! Aquii!! Ei!! ”  Olhei para trás,  era o Nicolas numa camionete Pathifinder. Corri para o outro lado da rua e ele abriu a porta de frente para eu entrar e me disse: ” Que tu tava  fazendo ali naquele carro forçando a porta?? Não ouviu eu buzinar para te sinalizar que estava estacionando??” Respondi com a voz quase sumindo de susto: ” – Arranca esse carro…me confudiram  com uma assaltante!! Pode vir policia!! Arrancaaaa!! Ele arrancou o carro e saimos dali.

Ele surpreso e rindo, ao mesmo tempo: –  ” Mas tu tá louca!!? Eu não entendi, mesmo, o que tu fazia naquela de abre porta  do carro, fecham porta, tu puxando de novo, não te convenceu e foi para a porta  de trás e depois os gritos da mulher e tu gesticulando , falando e tentando sair do carro. O que é que houve, afinal?? ” Eu num misto de susto e braba: -” Mas tu não tinhas um Audi, Nicolas?? Tu me ligou pedindo para eu descer do prédio que estavas chegando, estaciona  um Audi, os vidros todos pretos, não consegui identificar com nitidez quem estava dentro, por dedução de momento achei que era tu, ora bolas!!”  Ele, rindo cada vez mais: ” Mas, Synara, meu Audi era branco! Não preto!” Respondi: ” – Mas tu com essa mania de ter mais de um carro, me confundes. Sabes que não dou a minima para essa de marca de carro! Tu tinhas um carro preto, sim!!  Ele as gargalhadas, já: ” O preto não era um Audi, ora!”  E ria que se contorcia na direção do carro e dizia: -”Imagina se te pegam!!?? Até tu explicar tudo, iriam te levar presa!!!” E dizia me tirando um bom sarro da minha cara: - “Noticia de hoje: Veterinária assaltando carros em Porto Alegre!!” Acabamos os dois rindo muito até chegarmos à casa dele para fazer a revisão do Cão.

Quando retorno para o apartamento da minha irmã encontro o porteiro apavorado dizendo que a mulher chorava e ele tentava explicar que , com certeza, havia um engano pois sabia quem eu era e que não era um assalto. Cheguei no apartamento e vem a minha mãe a perguntar: -  ” O que houve, Synara, lá embaixo? Tu entrou num carro, saiu, gritos de uma mulher, um rapaz a te chamar de uma camionete, fiquei sem entender  nada daqui! Com tu disseste que podia o Nicolas vir de moto, fui espiar da janela para ver se procedia e vejo toda uma cena sem compreender, nada!”   Minha irmã mora no sétimo andar por isso a mãe não ouvia o que a mulher gritava. Contei tudo  e ela dizia: -  “Synara, que perigo, minha filha, vá que o cara puxasse uma arma!!? Porto Alegre está tão violenta, filha!”  Eu cansada me atirei no sofá e falei: – ” Toda cidade grande está violenta e neurótica, mãe. E foi muita coincidência nos fatos, né!? E a senhora sabe que sou desligada para algumas coisas…vou lá saber que cor era o carro do Nicolas, e  muito menos que ele havia trocado de carro…Quero mais é voltar para Zimbros, logo..lá tenho outro ritmo de vida, agora. Não tem neuroses…não tem esse trãnsito…não tem esse medo que torna as pessoas desconfiadas de tudo…

                                  Eu e Wilbor na paz de Zimbros                  

E rimos muito eu e ela, também. Por que, contudo, foi muito engraçada a confusão toda que se estabeleceu. Hoje estou novamente aqui no meu sossego e com muito trabalho pela frente com meus escritos e com o site. Mas na paz e sem passar por assaltante. Espero tê-los divertido com essa breve história.

           

                                                      

 Até o próximo causo.

9 Comentários


Vera Vivas
em

Olá Synara,

Bem vindaaaaaaa!!!! Dei boas gargalhadas e muitas lembranças tbém, uma vez em Sampa, fiz sinal pra um Taxi e olhei pra cima que havia um helicóptero sobre a Paulista, e voltei os olhos…”uma carro branco parado e entrei de imediato…” quase morri e vergonha, era um senhor “mui distinto e elegante” que com bom humor me perguntou: “Pra onde senhorita e riu pra se escangalhar….” Nossa, foi “sinistro”, como dizem os jovens hoje”…
Sim, hoje nos falta BOM HUMOR!!
Vivam nossas pequenas cidades interioranas, sem neuros……por hora!!E a oportunidade de “CAUSOS” hilários como sseu pela andança na cidade grande.

Até mais,

Vera



Gisele Denck
em

Synara!
Dei muita risada lendo teu causo, e fiquei com saudades dos teus papos e conselhos tão preciosos.
Estou feliz que você está em paz!
Um beijo saudoso



synara
em

Ola Vera. Obrigada pela participação. De fato, espero que demore – ou não chegue nunca – os exageros que uma cidade grande tem, em nossas cidades mais interioranas, como colocaste. Embora, elas tenham potenciais de crescimento para o ser humano que são indiscutiveis. Como coloquei no causo, há tempo para tudo e para todos, de resto são escolhas pessoais e devemos respeitar todas.
Abraço
Synara Rillo
Médica Veterinária



synara
em

Ola Gisele! Saudade de vocês, também. Tu e o César sempre foram excelentes amigos e clientes, sem falar no Chico e Clara, meus “desafios” profissionais. E a Piuzinha ( Madalena)?? Nossa, creia, lembro de todos os gatos que ajudei nessa vida; os que moraram comigo, então, a saudade aperta. Mas sei que pelo gesto amigo de vocês ao ficarem com ela para eu vir atras dos meus sonhos e da minha paz ela está muito bem. Um “apertão e um beijo nela, minha “bundundinha” como a chamava, e ela vinha a mil com as 3 patas delas, jogando o traseiro para cima por causa do equilibrio.
Um beijo em ti, no César e afagos na bicharada. Obrigada, amiga, pela postagem e saber que vez que outra me lê por aqui.
Synara



Laura
em

cara Synara, adorei!
Fico imaginando o susto que você levou!
Um abraço,
Laura



Marco Antônio Rillo Loguercio
em

Olá Tia Synara!

Fazia horas que não vinha xeretar teu diário eletrônico, pois bem, neste exato momento estou sozinho em casa na frente da lareira curtindo o jogo do colorado e rodeado pela bicharada daqui! Fico feliz pela paz de espirito que encontraste e que vai descrita no preambulo desse causo. Aos leitores que me perdooem, mas me “mijei” dando rizada, como conheço muito bem todos os personagens deste causo (inclusive o porteiro) e o cenario, é como se tivesse acabado de ver um curta metragem gaucho em 3D com todos os ingredientes para uma boa comedia familiar e que mereçe ser compartilhada. Noticia em ZH: Médica Veterinaria filha do grande poeta gaúcho Apparicio Silva Rillo sequestra uma menininha no bairro bela vista na capital e pede recompensa.hahahaha…..bjus te amo….



Rosnel Bond
em

Oi Cynara!
Acabo de receber um presentaço de cumple años…
Saber que ao meu lado tenho como vizinha uma nova amiga, competente médica veterinária e talentosa cronista, cujos causos bem humorados por certo serão para mim um alívio às amarguras das minhas críticas rotineiras às injustiças do capitalismo.
Obrigadão!



synara rillo
em

Oi “James Bond”!!! Beleza de te encontrar aqui no site lendo meus trabalhos; grata pelas palavras de incentivo; ainda mais vindo de um jornalista do teu quilate. Isso de fazer novos amigos é bom demais! Bueno, abraço pelo teus cumple años já te dei. Espero poder continuar dando boas risadas e gostosas conversas lá no “buteco”da “dona Riiita”! “traazz mais uma donariiiita!!! E manda junto uma paçoquinha de amendoin !!! (risos).
Beijo-te!



Cristiane
em

Querida Synara,
Ri muito com teu causo.Fico feliz que estejas bem, tranquila, como sonhavas.Quando vier a Porto Alegre me avisa, para nos encontrarmos, e botar o papo em dia.A Júlia está muito arteira.Ela fala pro Lúcio “Não incomoda papai”.Estamos com saudades, grande beijo
Cris


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