Os gatinhos da senhora de mais de 80 anos


dil-em-plenitude-materna-2009-008.jpg   Essa pequena história que vou contar a vocês me marcou de uma forma interessante. A tenho nítida na memória, desde as imagens, sons, cheiros, reações e ambiente,  e com ela decidi abrir esse espaço que ofereço no site. Posso até dizer que essa mais que todas foi um estimulo forte para começar a buscar a Medicina Veterinária também como uma ciência humanista. Foi quando percebi da magnitude da presença do ser humano interferindo no universo dos cães e gatos. Percebi que minha jornada profissional seria recheada de sentimentos alheios, mais do que as emoções genuínas dos animais, que são bem mais fáceis de manejar.

Bom, vamos aos fatos:

Eu devia ter uns dois anos de formada a época do acontecimento. Estava com clinica montada na cidade de Passo Fundo e, pelo pouco tempo, já estava indo bem. Uma razoável cartela de clientes, para quem a pouco havia chegado à cidade e se estabelecido como profissional.

Um dia recebo uma moça que me procurou na clínica solicitando atendimento veterinário; mas não vi nenhum bicho com ela para receber meu atendimento, mas enfim, a atendi, fui conversar com ela.

Na verdade ela veio com a intenção de combinar umas castrações para alguns gatos que eram os animais de estimação da sua mãe, segundo ela uma senhora de mais de 80 anos que morava sozinha com 10 gatos. Entusiasmei-me com aquilo, 10 gatos numa pegada só, um bom dinheiro para a clínica e mais cirurgias para ganhar cada vez mais experiência profissional.

Tudo acertado quanto a custos, dia da cirurgia e ficou acordado entre nós que eu iria até a casa da mãe dela, essa senhora de mais de 80 anos, para buscar os gatinhos para as castrações. Alertei a moça da importância de deixar os gatinhos presos em uma peça dentro da casa para facilitar meu manejo na hora de colocá-los nas caixas de transporte e que ela avisasse sua mãe. E de fato avisou.

Quando a estava levando até a porta, ao término da conversa, ela achou por bem me dizer que a mãe dela, a senhora de mais de 80 anos, era um pouco geniosa, que eu não levasse em conta o jeito dela.

Eu não dei tanta importância ao “alerta” da moça sobre o temperamento da sua mãe; cheguei até a pensar por uns segundos, o que poderia ter de tão difícil numa senhora de mais de 80 anos, eu então com meus 25 anos, me sentindo mais apta do que essa senhora de 80 anos e geniosa.

Deixamos marcadas as cirurgias para o dia seguinte e pedi que ela avisasse a mãe dela que às 8.30 eu estaria lá para pegar os gatinhos.

Esse dia amanheceu chuvoso, úmido e frio; estávamos sob a estação do inverno. Cedo da manhã me dirigi à clinica para pegar as caixas de transporte e dar umas coordenadas para meu funcionário ir trabalhando. Quando estava saindo para buscar os gatinhos da senhora de mais de 80 anos, chegou uma pessoa e começou a me pedir algumas informações sobre seu cão, o que fez com que eu me atrasasse para o combinado. Mas fui. Nessa época eu tinha um fusca 1600 dois carburadores, a álcool, “um fuquinha louco de bom!”, que era a forma que usava para deslocamento em atendimento domiciliar. Imaginem: inverno e Fuca a álcool, claro, que perdi mais uns minutos para o motor pegar.

Às 9.10 h estacionei na frente da casa da senhora de mais de 80 anos. Com quarenta minutos de atraso. Era uma casa de madeira com um muro baixinho e um portãozinho que dava entrada a um bonito jardim com roseiras;  Me pareceu uma casa com estilo de origem alemã. A porta ficava pela lateral da casa e para eu chegar lá eu devia tomar um caminho feito com lajotas, que me pareceram bem lustradas, e como garoava, estavam bem escorregadias, e eu calçava bota “zebu” com cano curto e que tinha um solado de borracha muito fino o que me favorecia o escorregar. Fui com cuidado até a porta. Um silêncio. Todas as janelas fechadas como se não houvesse ninguém em casa ou como estivessem dormindo. Logo, pensei: -“Se a senhora de mais de 80 anos estiver dormindo melhor por que meu atraso não aparecerá.” Bati com os nós dos dedos na vidraça da porta. Sem muita força, leve, por que havia um silêncio sepulcro à volta, sem necessidade de bater para emitir som alto.

Tenho nítida a cena na memória: Eu parada frente à porta que continha dois degraus elevados que me deixavam em desnível em relação a quem fosse atender a porta, com duas caixas de transporte grandes para gatos, uma em cada mão, de cabeça baixa, aguardando ser atendida.

Quando de repente abre a porta e salta uma mulher aos gritos, numa língua que eu não entendia o significado, e me dá um pontapé que me atingiu a virilha direita e me jogou pra trás, pelo impacto do chute, pela dor e pelo susto de ver uma senhora, sim com mais de 80 anos, mas com no mínimo 1.80 altura, magra e ágil e com uma fúria que eu nunca havia visto. Foi o tempo que tive para perceber que ela tinha algo em uma das mãos que já se levantava; era uma cinta, e me veio uma laçada no ombro, onde senti o perigo do gênio da senhora de mais de 80 anos. Foi o tempo que tive de me virar e sair correndo dali; mas como as lajotas eram escorregadias e a bota que eu usava tinha pouca aderência da sola, tive que me conter na corrida e com isso deu tempo da senhora de mais de 80 anos correr atrás de mim me enchendo de laço. Eu me vi mal na situação, escorregava, tropeçava e tentava me livrar das cintadas; fui até quase o portão de entrada da casa nesse estado. E com a senhora gritando expressões que me pareciam ser de baixo calão e ofensa pelo tom da voz dela.

Isso tudo acontecendo e continuava um silêncio sepulcral à volta. Apenas ao longe uns latidos pelo burburinho da cena que protagonizávamos, eu e a geniosa senhora.

Quando consegui levar a mão ao portão para escapar de vez da surra ouvi uma voz com tom de aviso amigo – mas não percebia a presença de alguém para me socorrer da surra – dizer: Corre que a velha é louca! Corre, corre moça! Não deu outra, sai em disparada em direção ao carro, ai já havia recuperado minha agilidade dos 25 anos, pois não estava mais no caminho das lajotas que escorregavam. E me mandei.

Cheguei de volta à clinica muito braba. Esse era o sentimento que havia me invadido, não sentia raiva da senhora em si, mas do que estava passando em função de ser Médica Veterinária. Eu não achava que devia ficar a mercê das dores sentimentais dos donos. Isso me desestimulava no exercício da profissão.

Desci do carro mancando e esbravejando ; o rapaz que trabalhava comigo meio apavorado pela minha indignação, me pergunta: – “O que houve doutora? O que houve?” E eu apenas disse: – ‘”Apanhei de uma velha de 80 anos!” E fui ao banheiro ver como estava minha coxa que doía muito. Bom, com o chute da geniosa senhora de 80 anos, se formou um hematoma com um diâmetro equivalente ao de uma laranja. Fiquei mais braba ainda ao ver minha perna naquele estado.

Saí do banheiro e fui direto ao telefone ligar para a moça, filha da senhora que me surrou. Ela muito envergonhada ao conversar comigo se justificava e pedia desculpa pelo mau gênio da mãe, que na verdade a mãe dela já havia ligado para ela para reclamar que eu estava atrasada e os gatos estavam miando de fome pelo jejum e que ela estava com pena deles; e que ai,  ela pediu calma a mãe, e que a geniosa senhora sua mãe apenas disse: – “Ela me paga!” ; e desligou o telefone. Mas que ela, a filha da senhora, não imaginou que a mãe dela fosse chegar a esse ponto. – “Minha mãe é terrível, mesmo. Desculpe-me!” Ai, eu dizia a ela que ia processar a mãe dela, blá, blá, enfim, acabei xingando a moça.
Mas não fiz nada disso. Me acalmei e apenas registrei forte esse fato da minha jornada profissional. E foram tantas situações peculiares que creio terem sido elas as grandes motivações para eu passar a observar comportamento do cão e do gato associado as dores humanas. O tema principal do meu livro “ Cães, donos e dores humanas”.

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