Pseudogestação em fêmeas caninas – nada tem de psicológico!


  Eu e minha Gordinha 001                                                  Esse tema  que vou abordar no site  é  parte de uma responsabilidade que trago comigo mesma,  de sempre explicar de forma mais correta possivel todos os temas referentes aos animais de companhia. Com esse objetivo,  posso espalhar uma forma de consciência e proteção animal que virá por meio do conhecimento real dos fatos. Desmistificar mitos e o  mercado econômico consumista sem necessidade para as pessoas tanto quanto para os bichos de estimação.

Nessa luta que travo com a real proteção dos cães e gatos, sei que muitos dos meus textos  podem soar repetitivos em suas justificativas; mas não tenho como  fugir de um tema,  ou mote,  que é de fato a humanização desses animais. Maior mal que essas espécies ficaram sujeitas no século em que aqui chegamos. Devemos,  por consciencia e obrigação ética, entender os animais por suas vias instintivas de seres irracionais e não compará-los a nós –  seres humanos – nas suas necessidades de manisfestação básica e simples da vida.

Sabemos que vida é ciclo. Se vivemos  também por influência das fases biológicas,  quanto mais natural agirmos e sermos, menores serão os riscos de termos alguns desses ciclos alterados, trazendo-nos desequilibrios dos mais variados,  e em muitas esferas da nossa vida – inclusive a reprodutiva. Assim pode acontecer e ser com os animais como um todo, reservando as particularidades de espécie.

Quando uma fêmea canina  entre no que se denomina popularmente “cio” (  em que está  receptiva ao macho e apta a reproduzir) seu organismo fisiológico está dando os maiores alertas possiveis às glandulas que produzem hormônios compativel com essa situação ciclica reprodutiva. Vai do hipotálamo e hipófise –  que estão localizados no cérebro  -  aos ovários,  estruturas localizadas na cavidade abdominal e que fazem de forma eficaz a biotransformação hormonal,  para que cada um dos fenômenos do ciclo reprodutivo aconteça de forma e ritmo que contenham cadência.

Como os cães não sofrem estresse em profundidade, ou seja, não são passiveis de serem portadores de doenças de fundo sentimental ( carências, medos imaginários, baixa estima, depressão como perda do sentido da vida, etc.),  já percebemos o equivoco em  associarmos a pseudogestação ou pseudociese nas cadelas que não são castradas como de causa psicológica. Emoção é uma forma ou via  de sermos afetados pelo estresse. Nesse caso vale para a espécie humana como para a canina. Mas  é  importante termos em mente a diferença conceitual e aplicativa de emoção e sentimento. Animais irracionais possuem emoção e não sentimento ( Emoção é tudo que entra pelos cinco sentidos e manifesta-se por uma determinada reação corporal com o objetivo do bem viver como um todo. Sentimento seria a tomada de consciência dessas reações e,  por sua vez, passivel de modificações nas emoções reativas. Tudo isso está bem explicado em um capitulo do meu livro: “Cães, Donos e Dores humanas”).

Como e por que ocorre uma ” falsa gravidez”  nas fêmeas caninas:  Em primeiro lugar temos que ter em mente que essa situação não é caracterizada como uma patologia em  si, embora,  classificada por alguns autores na patologia das mamas como galactorréia ( produção de leite) de pseudogestação. Penso que essa classificação ocorra porque mamas ingurgitadas de leite sem associação com pós-parto pode levar à alterações nessas glândulas, entre elas a mastite. Outra forma de termos produção leiteira sem termos a fase pós-parto é  em alguns casos de Hipotireoidismo. Com isso já podemos entender que essa situação de mimetizar uma gestação é de ordem FISIOLÓGICA.

Quando uma  fêmea canina entra no periodo que denomina-se estro (cio) ela passa por várias fases estrais, ou seja, pró-estro que é a preparação inicial para que aconteça o ciclo reprodutivo. Essa fase dura em média 7 à 10 dias e caracteriza-se pelo edema vulvar, descargas sanguinolentas, atração dos machos e recusa por parte da cachorra ao coito. Logo após, ela entra na fase estro,  propriamente dita,  onde vai apresentar ainda o edema vulvar, as descargas sanguinolentas param ou diminuem consideravelmente, os machos continuam sendo fortemente atraidos e as fêmeas por sua vez entram no que podemos denominar de reflexo de postura e aceitação do macho. ( Reflexo de postura é quando a cadela, por exemplo,  afasta o rabo quando tocada na região traseira, posicionando-se para a monta). O periodo do estro dura em média 5 à 10 dias, intervalo onde vai ocorrer a ovulação canina que, geralmente,  acontece entre o 11° ao 13° dia , contando-se esses dias, na prática, desde o dia “um” do sangramento. Logo após essa fase,  entra no ciclo denominado metaestro que tem  duração de 100 à 140 dias . É nesse intervalo estral que há a fixação do embrião ( nidação), gestação, parto e lactação. Se por ventura não existir contato com o macho é nessa fase que ocorre a pseudogestação. A última fase do ciclo estral das fêmeas é denominado de anestro sendo bem variável o seu periodo em dias. No anestro não existe sinal externo nas estruturas anatômicas e comportamentais relacionadas ao cio.

A pseudogestação está relacionada com o crescimento final dos foliculos e por sua vez com a ovulação; sendo que os hormônos envolvidos nesse processo são: estrogênios produzidos pelos foliculos em maturação,  que por sua vez estimulam a liberação pelo hipotálamo do hormônio gonadoliberina (GnRH) que induz a descarga ciclica de luteotropina  (LH) e folitropina (FSH) levando, como disse, ao crescimento final dos foliculos e à ovulação.

Com a maturação final dos foliculos temos na estrutura ovariana uma organização de células que vão formar a estrutura chamada corpo lúteo ou corpo amarelo, que por sua vez, vai liberar o hormônio progesterona que é, em tese, o hormônio responsável pela manutenção da gestação. É a progesterona que inibe o ciclo de descarga hormonal  oriundo do hipotálamo e da hipófise conforme expliquei acima.

A falsa gravidez acontece porque esses corpos lúteos ou amarelos não involuem devidamente em algumas cadelas e permanecem secretando a progesterona em niveis compativeis com gestação,  fazendo o processo ciclico hormonal de gestação, parto e lactação.  Por isso que a pseudogestação ocorre a partir de 2 meses pós-cio,  já que é  o tempo de duração da gestação nas cadelas.

 Clinicamente, podemos dizer que uma fêmea canina está em pesudogestação quando  2 à 3 meses após o cio começa a manifestar sinais de final de prenhez e parto,  sem ter tido nenhuma possibilidade de cópula com o macho. Muitas delas produzem uma lactação considerável; talvez esse  é o maior cuidado que devemos empregar nesse casos, pois mamas cheias de leite sem haver uma amamentação é passivel de mamites ou “empedramento do leite” trazendo desconforto ou dor.

As alterações fisicas e comportamentais são bem variáveis para cada cadela.  Algumas nada manifestam,  outras podem apresentar agitação, proteção de área, preparo de  ninho, distensão abdominal, sinais externos de parto, lactação ou não, perda do apetite, entre outros. É muito comum observarmos comportamento de agressividade que se explica por forte proteção de uma suposta ninhada, sendo que algumas fêmeas “adotam” um objeto qualquer como “representação” de seu filhote. Vale lembrar que não devemos retirar esses objetos delas, porque isso pode causar mais ansiedade no animal.

Sabe-se que é com a queda do hormônio da progesterona que tudo volta ao seu ciclo mais padrão, portanto, uma pseudogestação canina leva em torno de 8 semanas, de forma gradual, para terminar. Muitos proprietários esperam um tratamento para essa situação e não há. Como relata a pesquisadora do comportamento canino, Bonnie Beaver: “O melhor tratamento para esse caso é o não tratamento”. Justifica-se essa colocação pelo fato , mais do que evidente, de que isso é fisológico e que há a necessidade de esperar que cumpra-se o curso ciclico hormonal das fêmeas caninas.

Muitos profissionais lançam mão de medicações para “secar” o leite ( Contralac do laboratório Virbac) mas,  na minha opinião,  não vejo necessidade, salvo,  em  produções extremamente intensas de leite, o  que não ocorre com tanta frequência assim. Basta um bom manejo de redução de alimento e água em torno de 25% do consumo diário de cada cachorra que teremos uma “secagem” natural dessa produção leiteira. Outro dado importante é não ordenhar esse animal ( retirar o leite apertando as tetas);  e vale como uma orientação básica também, pincelar o canal do teto com iodo para evitarmos possiveis contaminações do canal mamário prevenindo com isso possibilidades de infecções mamárias.

Creio, que pude elucidar mais um mito referente aos cães. Nem tudo é doença nos animais;  por serem diferentes de nós, muitos podem caracterizar algumas alterações fisiológicas como patológicas, como no caso da badaladissima gravidez psicológica nas fêmeas caninas. Vejo uma forte necessidade dos colegas estudarem mais o comportamento natural e herdado ( genética) dos cães e gatos para uma maior compreensão e aplicação de medidas corretas em relação aos animais de companhia. Entre esses casos,  cito a forma errônea de castrar uma cachorra 3 meses após o cio, pois podemos precipitar uma pseudociese com a queda abrupta da progesterona. A castração é válida, sempre, mas recomendo que seja feita com 4 meses pós cio. Outro dado que ouço muito entre os profissionais, é  que a pseudogestação induz à piometra ( infecção uterina) e não é verdade, os fatores envolvidos no desenvolvimento da piometra nada tem a ver com o a reincidência desse quadro.

A natureza é sábia, vamos escutá-la e estudar mais sobre os cães e gatos como nossos parceiros – hoje “intimos”- nessa caminhada que se chama vida.

Até o próximo artigo.

13 Comentários


Juliana Coelho
em

Que bom poder ler mais um artigo seu, sempre aprendemos mais. Gostei da foto!!
um abraço carinhoso

Juliana Coelho



Synara
em

Obrigada pelo carinho, Dra!
Abraço fraterno
Synara Rillo
Médica Veterinária



Juliana Coelho
em

Dra.Synara, Feliz Natal e um Próspero Ano Novo, com muita paz e felicidade para voce e todos os seus.
Um abraço carinhoso
Juliana Coelho



Harry Junior
em

2010 de muita paz e harmonia minha amiga! Um grande abraço! Harry Junior



synara
em

Ola Dr! Obrigada, para ti e tua familia desejo o mesmo. E a bicharada?? Muita correria de consultório? Abraço, amigo.
Synara Rillo
Médica Veterinária



synara
em

Ola Juliana! Muita luz e paz nesse ano novo, que já está ai, para ti também.
Abraço.
Synara Rillo
Médica Veterinária



Keliane
em

Oi! Em um condominio popular de Salvador vive uma cadela de rua. Ela se alimenta e dorme no condomínio, mas não tem dono.
Há três/quatros dias ela apareceu doente. Os sintomas são: dificuldade para respirar, confusão mental, agitação (não de agressividade, mas ela anda o tempo todo não consegue ou não quer parar), ela não anda para trás, isto é, se ela ficar presa defrente para uma parede ela não consegue dar dois passos para trás e seguir, muita tontura, fraquesa (mesmo muito cansada, ela não consegue parar de andar), ela quase não dorme (ontem ela dormiu essas duas últimas noites, mas logo acorda), ela estava andando em círculo (acredito que seja dor de ouvido, mas não tenho certeza, porém ela já parou de andar em círculos pequenos, apresentou febre (duas vezes, mas era uma febre baixa). Os bons sintomas são: ela come e bebe (mas, se não o alimento não for dado na boca… ela sente tontura e vertigem e não se alimenta direito; Reconhece as pessoas; Não está agressiva; Chora (sinalizando que algo está errado); o pelo não está caindo.
As fezes e urina, eu não sei te informar, pois ela mora na rua. Porém, soube que as fezes estão moles. Estou muito preocupada com ela. Ligamos para o centro de zoonoses de Salvador, e o veterinário disse que pode ser doença do carrapato. Estamos dando cloridrato de moxilina (duas caixas, 2 comprimidos 2x ao dia), algo assim. Dei banho na cadela. Realmente, ela estava cheia de carrapato. Passei talco antipulga e carrapato e comprei a coleira. Além do remédio, e do figado. Não tenho condições de pagar uma consulta particular, mas me parte o coração ver um animal precisando de ajuda e não socorre-lo. Por favor, me dê uma orientação E ME RESPONDA POR EMAIL O MAIS RÁPIDO POSSÍVEL. O nome da cadela é Hanna, ela é castrada e vermifugada. Faço o que posso para ajudá-la.



cleia
em

Dra Synara, leio todo os seus artigo e tb ja recorri a sua ajuda.e estou eu aqui precisando de sua ajuda.
Tenho uma cadela srd q adotei a 10anos idade hoje de mais ou menos 14 anos,De 6meses pra ca tem emagrecido muito ficando pelo e osso.Foi feito exame de sangue e descartado diabetes ou quaquer problema hepatico.
A tres dias ela esta com diarreia liquida e amarela com cheiro forte,não consegue levantar-se.Levei ao veterinario,foi feito exame de toque retal e não ha massa e nem febre.Foi medicada com soro,xantinom,plasil,complexo b,vit.b12,vit c buscopan.trouxe para casa e hoje as 6horas,apliquei isso tudo no soro mas não na veia e sim na pele.Ela apresenta pequena melhora pois conseguio levantar. as fezes continuam quase liquidas mas de cor escura na verdade pretas.no momento estou no trabalho enão tenho ninguem cuidadando.O vet cogitou a possibilidade de ser um cancer de figado mas pediu que aguarda-se.Estou aflita e com muita dó não sei o que fazer não quero vela sofrendo desse jeito.me da uma luz por favor.



Synara
em

Ola Keliane! Atrasadíssima a respostas, mas vai lá: Acho mais provável que esse animal possa ter cinomose, pelos sinais clinicos que relatas. Parece quadro neurológico de encefalite, fica bem complicada a situação para cuidar desse animal sendo de rua e não podendo estar dentro de uma clinica, onde mesmo assim, se for cinomose torna-se um pouco mais trabalhoso e com custos. Eu faria eutanásia por dignidade a um animal e compaixão. Nem sempre podemos lançar mão de um socorro que possa aliviar ou curar animais com essas caracteristicas, ortanto, não deixar que morra a mingua é o ato mais humano que possamos fazer.
Abraço fraterno
Synara Rillo
Médica Veterinária



Synara
em

Ola Cleia! Creio, que quando leres está resposta , possivelmente, esse animal já tenha morrido. Penso que as causas de tudo possam estar relacionadas a Insuficiência Renal Crônica com suas devidas complicações gerais, desde anemia, hiperfosfatemia, creatinina elevada, etc ,etc. Por ai.
Abraço fraterno.
Synara Rillo
Médica Veterinária



Hugo Larangeira
em

Olá Synara, meu nome é Hugo, sou veterinário, trabalho como clínico de pequenos e gostaria de saber sua opinião sobre o uso da pulsatilla no tratamento da pseudociese canina. Desconheço efeito colateral em seu uso e percebo a redução da galactorreia em um curto período de tempo. Descobri seu blog recentemente e tenho lido com muito interesse seus artigos, parabéns pela iniciativa. Um Abraço.



elilton
em

Que artigo legal! Me ajudou bastante pois minha LHASA APSO MILLA de 3 anos está tendo a pseudogestação nesse momento. Tô colocando só gelo no local. É correto isso?

PS.Continue escrevendo pois seus artigos enriquecem e nos ajuda muito.



synara rillo
em

Oi Hugo. Veja só o tempo que levei para te responder. Fica dificil dar conta de tudo e alguns casos clinicos sao mais postados no quesito comentários, com isso acaba me passando alguns para responder em tempo hábil a postagem. Fico contente de saber que colegas estão participando, pois o site tem essa função, também, de trocar idéias e experiências na Medicina Veterinária. Embora percebo que alguns colegas se melindram com minha proposta do site, já que vou contra alguns padrões que são estabelecidos no trato aos cães e gatos. Mas, de fato, estou aqui para contribuir e trocar conhecimento.
Obrigada pelo teu comentário e pela tua participação. Nao tenho experiência com homeopatia, mas acredito muito nela. Fica aqui teu registro de uso de Pulsatiblla como controle da galatorreia no caso de pseudogestação.
Abraço fraterno.
Synara Rillo
Médica Veterinária


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