Instinto x sentimento


Essa historinha pode nos fazer questionar sobre a capacidade sentimental nos animais; até onde há compreensão da parte deles em relação as nossas questões afetivas; ter sentimentos é possibilidade de empatia. E isso os animais não têm.

Vamos aos fatos:

A fase de vida onde me deparei com o maior número de perdas significativas, que tiveram consequências importantes na minha vida como um todo, que foi a partir dos meus trinta anos ( hoje tenho 45 anos), foi o grande impulso para uma acelaração do meu auto-conhecimento.

E onde intensamente comecei os questionamentos e olhares sobre o mundo emocional do cão e do gato. Mas profundamente envolvida nessa relação com meus apegos excessivos, meus medos, rejeições, solidão, etc. Os animais me tocavam em demasia o coração e me faziam sofrer além da conta, ainda.

Nicolau Antônio – meu gato mais velho, que hoje tem 15 anos – e eu,  dividiamos um ambiente social em relativa sintonia com o Caetano, um canarinho belga amarelo e cantador que era uma beleza! Eu tinha um afeto grande por aquele pássaro cativo. Um apego posso assim dizer. Eram meus bichos de estimação, então, o Nicolau e o Caetano a essa época do fato.

A convivência entre eles nada tinha de pacifica, por que eu nunca oportunizei contato para estabelecimento de reconhecimento entre eles, ao contrário, sempre manejei os cuidados ao passarinho fugindo do Nicolau que me cercava em estado de curiosidade e já com “gana”de caçador nato. Caetano tinha sua gaiola sempre a uns bons metros do chão e longe de qualquer móvel que pudesse dar chance de salto ao Nicolau.

Em uma rotineira manhã acordei atrasada para sair para trabalhar, e tive que ser rápida com meus afazares de inicio de dia, e nessa rapidez quando fui colocar de volta a gaiola do Caetano, que havia acabado de limpar, no prego que ficava na parede, esse por estar frouxo, caiu. Sem tempo e sem querer arriscar uma queda da gaiola, achei por bem deixar o Caetano fechado dentro de um quarto na dependência de serviço do apartamento. Nicolau como de hábito ficava solto pelo apartamento e tinha acesso a uma sacada da sala onde tomava sol.

Nicolau tinha como hábito condicionado correr para a porta de entrada do apartamento quando percebia minha chegada, já lá na porta do prédio. Então, me causou estranheza quando no fim desse dia retornei para casa e ao abrir a porta não ver o Nicolau ali a minha espera.

O apartamento tinha um hall de entrada pequeno e depois vinha a sala , e dali mesmo do hall, comecei a ver meus objetos de decoração da sala caidos e alguns quebrados, como uma luminária que tinha uma cúpula de vidro. Alta adrenalina, e pensei: Fui assaltada! Por que o aspecto inicial do que via na sala parecia isso, uma invasão, uma desordem. Segui a passos lentos, e quando entrei na sala me apavorei com a cena! Tudo ao chão, tapete empurrado, porta retratos quebrados, cds fora da capa, cacos de vidro da luminária, um quadro no chão ( e não era pequena a moldura – pesado) e o pior de tudo pra mim: penas, muitas penas por toda a sala, corredor e quartos. Cheguei por alguns milésimos de segundos a pensar ( ou querer) que o Nicolau tivesse caçado alguma pomba, já que vez q outra ele caçava na sacada do apartamento. Mas não, eram amarelas as penas.

Meu impluso foi correr em direção a área de serviço e então me deparei com a gaiola caída ao chão, toda torta, como se tivessen forçado entre as grades ( que eram fininhas),alpistes pelo chão, àgua, penas e fezes. Foi o que bastou para não ter mais nenhuma dúvida de que o Nicolau havia caçado o Caetano.

Como não via o Nicolau retornei para a sala; nessas alturas eu já chorava com uma dor lancinante no peito, a dor da perda. Segui adiante e fui encontrá-lo em cima da minha mesa de trabalho, no quarto que eu transformei em sala de estudos para mim. Ele ressonava….nem percebeu minha presença…me aproximei e fui olhar para ele para ver se encontrava alguns resto de sangue, penas, pele, ossos, procurar vestigios do Caetano nele. Nada. Estava limpinho e transparecia dele algo de saciedade, ou de cansaço, ou ambos.

Minha reação foi brigar com ele, xingá-lo, esbravejei contra ele como se ele pudesse me entender… E terminei a “conversa” com ele, dizendo: – Tu me sacaneou!! Não falo contigo por 1 semana e não dormirás mais no meu quarto!! Me esquece!!  Ele continuo impávido…sonolento…Virei as costas e fui buscar o aspirador para limpar o apartamento que estava tomado por penas. Enquanto aspirava as penas do Caetano, chorava muito. Foi dolorido e foi dificil em função de um apego e suas representações que aquele passarinho me causava.

Foi tão forte que de fato não falei durante 1 semana com o Nicolau, e ele sem entender nada. Eu apenas colocava a comida no pote, trocava a água e bandeja sanitária…nem olhava para ele….com mágoa! Eu estava magoada com um gato! Quando me dei conta disso levei essa sensação e dor para ser trabalhada em uma sessão de terapia analitica minha.

Por estar invadida por emoção sentimental forte não percebi da inocência e naturalidade de um ato animal; que era evidente que meu gato não tinha e não tem a menor noção de empatia; não tendo condições de como animal que é, dimensionar o quanto aquele canarinho me era importante, e muito menos que, por causa de uma ato instintivo, por seu bote certeiro de caçador, eu estava a sofrer.

Mas enfim, o “perdoei” e com o tempo fui assimilando cada vez mais que meu gato era diferente de mim. Nicolau é um gato e reage como tal e é nisso que reside sua grande beleza , hoje sei.

Olha ele ali na foto!

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