A dor emocional exposta


A dor emocional exposta. Esse era o semblante do homem que estava sentado a minha frente tentando pedir informação sobre zoonoses.
Vejam bem, os “causos” que irei contar e que foram vivenciados na minha trajetória profissional nem sempre são motivos do riso farto, por muitas vezes estarem cheios de sentimentos que trazem muito dor emocional do outro. Esse é um deles. Embora haja por detrás das nossas muitas “tragédias” a leveza do fato engraçado.

Vamos a esse causo:

Essa situação ocorreu quando eu atendia na Clinica de uma colega minha. Já faz alguns anos isso. Estava sentada fazendo registro das fichas dos pacientes no computador e o funcionário se dirigiu até a mim para me dizer que um homem queria falar comigo.
“- Um cliente, queres dizer? Disse eu a ele. E ele que já tinha um jeito engraçado, deu um sorriso em tom de desconfiado e me respondeu: -“ Não…um homem….e me pareceu com cara de doido.. acho que deves tomar cuidado”. Essa preocupação dele era por que a Clinica havia passado por uma situação de assalto já, e também por que esse era o jeito dele, ele era uma mescla de exibido com atencioso, uma figura, ele.

Mesmo com os alertas dele fui até a porta atender o senhor. Era um homem alto, magro, aparentando uns 40 anos, com as roupas meio amassadas e tinha uns olhos estalados demonstrando tensão e medo; olhava para os lados, como se quisesse ver se alguém podia ouvir nossa conversa. Quando ele me viu, perguntou se poderia me fazer umas perguntas sobre uma cachorra do irmão dele, que ele não tinha cachorro, e até não gostava muito deles, seguia me dizendo. Eu prontamente: -“Pois não, faça”. E ele, ainda mais cuidadoso: -“ Mas não posso falar aqui…é um assunto delicado…sério..”, e olhava para o funcionário que nessas alturas espiava da porta nossa conversa.

Enfim, não percebi maldade naquele homem e sim uma profunda angústia, e seguindo minha intuição o mandei entrar. Como precaução, pedi ao “atencioso funcionário” que ficasse de olho, e qualquer coisa de diferente entrasse no consultório. .E ele, engraçado que era, disse-me: “ Estarei a postos com o telefone da Brigada na mão…”.

Aquele homem angustiado sentado a minha frente, suava, suas mãos tremiam e seu olhar não fixava no meu como quando duas pessoas estabelecem um diálogo. Começou a falar e me dizia entre palavras pausadas que estava muito preocupado com um irmão dele que sofria de distúrbio mental segundo lhes disseram uns “médicos lá..”, me falava ele. E que seu irmão tinha uma cachorra, e que ele queria saber se os cães podem transmitir aids…e baixando os olhos e aumentando a ansiedade..começou a me dizer que o irmão dele estava com uma ferida no pênis…e que ele estava apavorado… De imediato, percebi que quem estava apavorado na verdade era ele naquele momento do relato, e então, o interrompi dizendo que ele devia era procurar um médico e não um veterinário para tal fato…e ele de pronto me respondeu mais nervoso ainda: “ Não…não, .é a senhora que pode me ajudar…não vou procurar nenhum médico…ou melhor, meu irmão não quer ir ao médico…Eu apenas preciso tirar uma dúvida com a senhora sobre a cachorra…” Já percebendo o que podia estar ocorrendo com ele, o acalmei e disse que a respeito da cachorra eu poderia sim esclarecer as dúvidas dele, mas que achava por bem ele procurar ajuda médica para o irmão. Mas o estimulei a falar:: – “O senhor quer saber exatamente o que respeito da cachorra? “ _ “

Ele foi direto dessa vez: “ Se um homem tiver relações sexuais com uma cachorra ele pode pegar aids? E eu mais direta e objetiva ainda: – “ Não.” Nisso percebi um destencionamento facial nele…que suspirou: “ Nossa, ainda bem…” e de pronto emendou outra pergunta: “ E feridas no pênis, pode passar pra gente??” , a qual respondi: “ Por doença venérea em si, não. Mas por ser o trato genital da fêmea local com contaminação bacteriana natural da espécie, o homem que mantivesse relações com esses animais poderia ter riscos de algumas infecções.

E que essa situação se tornava mais delicada por que isso envolvia um distúrbio de comportamento sexual que se denomina de zoofilia e que eu ainda achava por bem ele procurar auxilio psiquiátrico para o irmão dele. E ele olhando-me, agora firme, nos olhos: -“ A senhora acha que sou louco”? e respondi: “Não, o senhor não é louco; mas o percebo uma pessoa angustiada…acho que isso já o suficiente para o senhor procurar ajuda de um médico…ou o seu irmão, claro.” e ele: Pois é…esse meu irmão..tá precisando de ajuda…Mas obrigada pela atenção. E saiu em disparada do consultório, .atropelando o funcionário…que gritava: “Pego ele, Doutora, pego o louco ??? . Ai só me restou dizer: “Não..deixa ele ir…não foi nada..” – “ Como não foi nada?? Ele saiu em disparada, Doutora?” Como explicar ao funcionário uma situação daquelas, delicada, inusitada e profundamente humana…cheia de dor e conflito. Preferi dizer que ele disparou para não pagar a consulta que eu queria cobrar pelas informações….E ele: Bah, ficou no “tufo”, Doutora! E eu: “ Acontece…acontece isso…não há problema.

Pois vejam, o que um Médico Veterinário corre o risco de vivenciar; como é diversa e triste a dor dos seres humanos. E nós nos deparamos sempre com as de fundo sentimental e emocional. Isso nos exige um duplo preparo, sem dúvida! Um preparo de vida , além do preparo técnico por si só.

2 Comentários


Shirley
em

Apesar da zoofilia ser um ato “anormal”, é o que mt se vê, principalmente na zona rural. Gosaria de comentar que apreciei bastante o fato de vc não julgar a pessoa. Coisa mt dificil hoje em dia.

Abraços,



synara
em

Ola Shirley. Obrigada pelo comentário, soma ao meu artigo , relato. Quem somos nós para julgarmos nosso semelhante, não é mesmo? Se compreendessem mais as pessoas e as “condenassem ” menos, esse mundo atingiria mais rápido a harmonia que advém do respeito ao próximo e seus potenciais de individualidades.
Abraço fraterno.
Synara Rillo
Médica Veterinária


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