Este post foi escrito no dia 20 de fevereiro de 2008 na categoria Artigos. Você pode acompanhar os comentários sobre este post através de RSS 2.0 feed e deixar seus comentários preenchendo os campos abaixo.
Depressão em seres humanos x animal de companhia
Um tema polêmico, questionador, instigante e que me faz pensar até que ponto as recomendações dos terapeutas ( médicos) de ter um cão ou gato são válidas para a recuperação ou manutenção em bom estado emocional de um ser humano que sofre por variadas angústias aos dias de hoje; nessa sociedade vazia e, ao mesmo tempo, competidora.
Me questiono, e muito, também, a forma como a doença depressão vem sendo encarada e/ou diagnosticada no século em que vivemos. Sem dúvida, que a ciência vem a cada dia em um progresso evolutivo com fins de descobertas que possam trazer saúde ao ser humano no mais amplo sentido.
Assim como surgem novas doenças conforme a época que se vive, a medicina se esmera para dar suporte a esse novos males. Entre eles a chamada depressão.
Acontece, que percebo que o termo depressão ganhou generalizações que podem ser “perigosas” como entidade nosológica final. A depressão , em si, como doença, tendo fundo orgânico ( neurológico) e/ou sentimental (emocional) é uma das doenças mais devastadoras que um ser humano pode ter. Pelo fato evidente de que ela tira a vontade da pessoa de viver! E, com isso, o turbilhão de disfunções que ela pode causar a um organismo é uma sequência em cadeia, tendo como base disfuncional orgânica a baixa imunidade como um todo, precipitando os variados males que o homem fica sujeito, entre eles, o câncer, as doenças cardiovasculares, doenças auto imunes, alergias, doenças periodontais ( sim, até os dentes podem ser afetados) entre outros males do corpo físico.
O que acontece hoje em dia é que o ser humano da camada social com mais acesso ao mundo como um todo, está em estado de massificação, perdendo sua identidade ( individualidade) numa angústia crescente do ter, do possuir, do ver, do acreditar, ou seja, vive cheio de ilusão. E é dela, por que falsa, que surge o que se denomina frustração. E é através desse sentimento, frustração, que muitos sentem-se, apenas, vazios, com tédios , solidões e muita ansiedade.
Poderia me atrever a dizer que é da soma desses sentimentos todos que surgem os “fantasmas interiores” gerando o medo e que dele advém o pânico, onde há a perda do controle de si. E dessa situação surgem as ramificações emocionais, onde pela sutileza dos sintomas, muitos profissionais da área da saúde fazem o diagnóstico: Depressão. E vá medicamentos! É só recordarmos, talvez uns 10 anos atrás, quando surgiu o famoso Prozac ( fluoxetina) alardeado como a droga da felicidade. Hoje, a fluoxetina, é pouco usada, e por quê? Deixou de trazer a suposta felicidade? Ou surgiram drogas mais imediatas, potentes ou mais eficazes para o “tratamento da ilusão” que tomou conta do mundo? Vivemos, hoje em dia, a era da ilusão e não mais da compreensão.
E muitos estão se iludindo crendo que o animal por si só é capaz ( o cão, nesse caso, por sua forte característica de sociabilidade que carrega como espécie) de transformar o vazio existencial do ser humano – por que dele não fugimos, somos humanos, e esse fato é parte da nossa condição de espécie.
Essa é, também, a grande “droga da felicidade” prescrita pelos variados profissionais da medicina: – “Tenha um bicho de estimação e teu mundo mudará!”. É mentira. Não muda. Acrescenta, na maioria das vezes, mais dor, mais apego, mais frustração e mais isolamento.
O cão, o bicho, foi feito para viver ao lado das pessoas com mais equilíbrio emocional e sentimental, e não ao contrário. Sua função como co-terapeutas ( e eu creio muito nessa função social deles) serve mais às pessoas que possuem transtornos físicos- emocionais mais graves ; como a esquizofrenia, o autismo, paralisias cerebrais e suas consequências motoras. Esses estudos, comprovados, existem há mais de 50 anos, e a psicoterapeuta Nize da Silveira foi, no Brasil, uma das precursoras do uso dos animais de estimação como estimulo para a melhora e controle de pacientes com distúrbios do afeto, isso lá pelos idos de 1960.
Acontece que ter um cão é vantajoso a esse mundo competitivo de hoje. Vide o “mundo pet” a ganhar “rios de dinheiro” para dar suporte – equivocado na sua grande maioria – aos animais de estimação.
Então, a depressão que não é a doença clássica, mas a que se convencionou, ao ser humano frustrado, como tal, passou também a ser indutora do uso dos animais irracionais como compensadores dos males atuais. E eles, os animais, ironicamente, passaram a adoecer mais pela presença forçada junto ao homem como compensadores do vazio existencial humano.
As pessoa com dificuldades emocionais/sentimentais não têm condições de entender as diferenças inter espécie, fazendo do cão ( mais do que o gato) um refém das frustrações ilusórias do ser humano.
E com isso, a própria Medicina Veterinária, “inventa”, “descobre”, distúrbios comportamentais, também, no cão . E eles não são suscetíveis a maiores alterações comportamentais, apenas, nos fizeram crer nisso. Os cães sofrem é de ansiedade (devastadora a eles) por condicionamentos induzidos junto ao cotidiano do dono e por terem e estarem com suas questões instintivas, animais, naturais da espécie, distorcidas e reprimidas junto a um ser humano triste, solitário e frustrado, buscando desesperadamente uma troca sentimental com seu cão.
Então, pergunto quem sofre mais aos dias de hoje? O cão ou o humano? Ambos. Em graus e proporções variados e, profundamente, diferentes. E faço um contraponto nessas questões todas ( e questionei isso no meu livro) dizendo que o cão é mais cão, mais autêntico quando junto ao ser humano mais humilde e com menor poder aquisitivo, exercendo suas características animais, de espécie, mais natural. E pelo simples fator que o cão acaba exercendo seu papel mais natural, ou seja, de companhia; porque quem não tem, por exemplo, as mínimas condições de sobrevivência no que se refere a sustentação básica para um ser humano, não possui nem condições de “sofrer” por tais frustrações (ilusões) sociais induzidas por esse mundo materialista que o poder disfarçado de “pai todo poderoso” diz que o ter é tudo. Não, não é. O ser em si é que o tudo em qualquer espécie. No cão , no gato e no ser humano, também.
Só que a cada ser a sua capacidade e a sua compreensão de si e de mundo. Temos que separar o que é do homem, em sua natureza, e com isso ajudá-los a compreensão de si mesmos para que que possam aceitar-se humano e com isso com condições de mudar a sua própria vida. Aceitação de si para enxergar a semelhança que há no outro. Todos sofrem, cada um a seu grau. Mas poucos sofrem da doença depressão, e esses sim , precisam de amor, carinho, compreensão e apoio. Não o suposto apoio de um cão, mas o apoio forte e verdadeiro do seu semelhante, sejam eles familiares, amigos ou médicos.
Temos que pensar muito ainda sobre a questão do cão/gato como verdadeiros benfeitores sociais na atualidade, para não transformá-los através das dores humanas espécies “mutiladas” em suas características simples de serem, apenas, animais.


Danielle Tórmena em 28 de fevereiro de 2008
Olá Synara!
Como sempre um maravilhoso texto!
Concordo quando fala que a grande maioria das pessoas está passando por uma “crise” de perda de identidade, sem valorizar o que realmente importa na vida, e dando prioridade ao modelo social que preconiza o ter como fonte de felicidade. Usar “drogas” para amenizar o sofrimento ou utilizar de animais de estimação para tentar suprir essa vazio de si mesmo nunca irá resolver..claro que resolve para as indústrias farmacêuticas que sempre lucram bilhões, mas isso nao vem ao caso..rs, mas acho que temos de parar de buscar fora aquilo que podemos achar dentro de nós mesmos, pra conseguir ter uma vida plena e sem angústia e dor. Não vejo como uma pessoa totalmente depressiva pode melhorar convivendo com um caozinho, que com certeza recebe apenas sentimentos negativos de seu dono. Espero que um dia nossos valores mudem, e que voltemos a ser seres humanos, que realmente possuem um coração repleto de amor, deixando o “ter” de lado e vivendo literalmente o sentido da palavra “ser”.
Abraço e fique com Deus.
Synara em 28 de fevereiro de 2008
Ola Danielle!
Nossa, boa tua opinião! É isso ai, um dia todos os valores terão que ser revistos na atual sociedade do homem; para, então, nos sentirmos dignos em dizer: Sou um ser humano e sei das minhas limitações, respeitando tanto a si mesmo quanto ao seu semelhante, e, com isso, gerando um respeito universal onde inclui a compaixão aos animais.
Obrigada pela tua bela opinião e participação no site.
Grande abraço!
Dra. Synara Rillo
Jaime em 2 de março de 2008
Nossa!
Arrebatador, verdadeiro e cru.
Como as verdades devem ser.
Gostaria de tê-lo escrito.
Parabéns!
Jaime Vaz Brasil
synara rillo em 4 de março de 2008
“Nossa!” digo eu Drº Jaime, pelo seu comentário. Humildemente sou-lhe grata pela sua opinião por seres o brilhante Médico Psiquiatra que és.
Grande Abraço!
Synara Rillo
Rafael em 11 de julho de 2008
Achei uma ótima iniciativa.
É o seguinte, fiquei sabendo que existe um site
http://www.orkupet.com que é tipo um Orkut, só que para animais de
estimação.
Bem show..
Flw.
http://WWW.ORKUPET.COM (O Orkut dos Bichos!)
synararillo em 15 de julho de 2008
Ola Rafael! Obrigada! Ok! Vou entrar para ver do que se trata!
Abraço.
Synara Rillo
Médica Veterinária
Iara em 23 de abril de 2010
Legal o blog . Se quiser me visitar, vou adorar, http://sindromemm.blogspot.com
Valeu!