” Carne de cachorro” – a midia espalha…”


Bom , hoje vou escrever aqui no site mais um “causo da Veterinária”. Vamos finalizar o ano descontraíndo e pensando, também!

O que vou contar-lhes ocorreu à época em que cursava a faculdade, eu devia estar no 6° semestre, por ai; e como era, e é, comum no meio universitário fazermos grandes parceiros de trajetória – alguns permanecem amigos ao longo da vida, outros, ficam na lembrança de amigos e parceiros de época de vida – eu havia formado um grupo de colegas em meio à vários outros.

Éramos, 6 ou 7 colegas, mais alguns agregados como as namoradas ou namorados desse grupo, que estavam sempre junto…e rindo muito!

Lembro do Fábio, amigão até hoje, esse ria e aprontava sobre tudo…tudo! O Jerônimo era o sacaneador mor do grupo; eu e ele às vezes “batíamos de frente”, por diversão dos “valores da juventude” ( ele me achava “burguesinha”). Mal sabia ele o engano e injustiça que cometeu comigo! Tinha a Maria da Graça ( ” mãe de todos” – a ponto de ser chata), solícita, amiga e alheia, talvez, as nossas risadas.

A Kátia, querida amiga, que até hoje faz parte da minha vida, com sua familia e o Michel seu parceiro, todos sendo hoje meus amigos – seus filhos são pessoas maravilhosas – era a “intelectual” do grupo, mas sempre cheia de medos e culpas com a familia de origem, com o mundo e consigo mesma.

O Apodi, que só queria saber de tratar cavalos, o doce amigo de todos, brincalhão mas gentil; a amizade minha e dele acabou se estendendo por que ambos fomos para São Paulo, fazer residência na Medicina Veterinária, ele, obviamente em cavalos, eu em cão e gato. A essa época eu estava casada e ele foi amigo meu e do meu marido nessa nossa jornada de inicio profissional.

Puxa, tinha o tal do “prepúcio”! ( coitado do menino – o apelido pegou de tal jeito na universidade que ninguém mais sabia o nome verdadeiro dele, eu até hoje não tenho a mínima idéia de como é o nome dele. Mas lembro bem dele.

Esse apelido pegou para ele por que ele dividia apartamento com o Apodi, nosso colega, e outros caras de outras faculdades; como o “prepúcio” era mais humilde, bonzinho, tímido, os guris “mandavam” nele, qualquer coisa a fazer ou buscar gritavam: “prepúcio”! E lá ia o”prepúcio”, buscar cerveja e xis-burguer, por exemplo. Não recordo bem, mas acho que o “prepúcio” fazia medicina ( Dr° “prepúcio” !) Mas isso não vem ao caso.Então com esse emocional mais humilde acabou sendo o “courinho” da casa, e ai um dia num churrasco, entre eles, algum “espirituoso” resolveu, de “courinho” , fazer analogia com o o prepúcio como estrutura genital e ai imagine o que saiu: ” prepúcio” ! lembro-me que ele não se importava muito com o apelido; os guris já apresentavam-o aos outros amigos como “prepúcio” e ele abria um sorriso muito puro e muito legal. De pessoa do bem.

Portanto, o “prepúcio” participava, com muita frequência dos nossos encontros de fim de tarde ou de fim de aula para um chimarrão desse meu grupo de colegas.

Falo nele, lembrei dele, por que do ocorrido com a história deste causo da “carne de cachorro” eles estava presente e entrou junto na confusão.

Mas dando continuidade a história: – pois o Fábio e a Maria da Graça, esses colegas, resolveram comprar um ponto de um consultório e ambulatório Veterinário, que uma Médica Veterinária colocou a venda com sua cartela de clientes. Como queriam trabalhar com isso num futuro próximo, mais 1 ano e se formariam na Veterinária, investiram, e chamaram a Kátia, que estava formada há 1 ano, para atender ali para eles. ( entre esse nosso grupo éramos de semestre diferentes, embora alguns de nós fizessem algumas disciplinas juntos, as que não eram os chamados “pré-requisitos” no currículo.) Pois ai, que o consultório se tornou , literalmente, ponto de encontro para nosso chimarrão e risadas. Mas também transformamos o consultório em ponto de aprendizado clinico diário.

Lembro hoje que era muito engraçado: uma Veterinária atendendo, a Kátia, a “intelectual” da turma, com no mínimo mais 5 à volta. Acabou ganhando “moral” como doutora Veterinária, pois os clientes ficavam impressionados como ela tinha “estagiários, acabavam achando competente, também, por isso. Mal sabiam a ” galera” que éramos.

Pois foi numa dessas situações de aprendizado somado a certa leveza nos atos comum aos jovens, que colocamos a cidade de Pelotas em “polvorosa”.

Vamos aos fatos: Foi atendido um cão da raça pastor alemão, que em função da gravidade do quadro clínico ( não lembro bem qual doença e situação desse cão na época) foi eutanasiado ali pelo consultório. Com isso o grupo de “estudos , chimarrão e aprontadas” foi acionado para uma aula prática de necrópsia. Pois a proprietária autorizou que o seu cão fosse estudado por nós. E valeu a prática, pelo menos aprendemos como dissecar corretamente um cão para análise patológica. Ficou bem “cortadinho”!

Material coletado, como vísceras, secreções, etc, acabou-se a necrópsia. E ai surge o dilema, onde colocar aquele cão, literalmente “carneado” ?

A Kátia, prontamente: ” -Ah, os guris vão levar lá pro campus da faculdade para ser incinerado, né guris!?? Se dirigindo ao Fábio e Jerônimo, que tinha uma moto- e talvez isso a fez concluir que eles podiam muito bem “levar o corpo do cão” até o campus. Os dois meio à contra -gosto, pois teriam que levar aquele “monte de carne” a uma distância de 15 km, no mínimo, para chegarem até ao campus e ainda por cima de moto. Mas foram, parceiros que eram.

Acontece que “parceria” até por ali, por que os dois acabaram aprontando e nos colocaram todos em pavor! Pavor pela responsabilidade que poderia nos atingir sob aquele ato impensado dos “parceiros” , assim como, o pavor que nos tomou conta do poder com que a mídia move um fato; além do imaginário que envolve o povo quando este é bombardeado com uma noticia. Ninguém sabe de onde vem, mas julgam, falam, discutem, inventam, aumentam e, ai , se espalha.

Passaram-se uma hora da saída do Fábio e do Jerônimo, e eles voltaram ao consultório; e estávamos alguns ali ainda a conversar, outros parceiros já haviam indo embora. Acho que estavam apenas, eu , Kátia, Maria da Graça e o Apodi, ainda ali, no consultório. Entram os dois com umas caras de “meio-riso” , bem na boa, sentaram, tomaram mate, ai, a Kátia pergunta: ” -E ai, deu tudo certo lá no campus??” E os 2 começaram a rir…De cara, perguntamos direto: “- 0nde vocês largaram aquele cachorro “carneado” , nem vem, vão falando ai!??” E contaram: – ” Ah, nem esquentem, passamos pelo Mercado Público ( a rua do consultório era nas proximidades do Mercado) e tinha ali um conteiner lotado de lixo e cascalho, e como estava bem cheio, é certo que vão recolher amanhã ( pensavam eles!). O Fábio ainda comentou: ” – Decerto pensaram que iríamos largar na rua , seus babacas! Temos responsa, tá?” E partimos já para outro assunto; por que o que não faltava para nós, daquele grupo, era assunto e risadas.

Depois de um tempo nos despedimos e cada um tomou seu rumo. Tudo normal, noite tranquila, manhã de estudo em casa, aula na faculdade à tarde, e aquele dia voltei direto para casa, não passei para dar um oi para a parceria do consultório. Deviam ser umas 9 da noite, e liga a Kátia, dizendo que no outro dia, cedo , precisava de mim e todos os que estavam na necrópsia, pois tinha dado rolo, mas que era para eu ficar bem quieta, não falar com ninguém sobre a necrópsia. E perguntou se eu havia lido o Diário de Noticias daquele dia. Respondi que não, e ela me disse que procurasse ler uma noticia de primeira página e que , então, eu poderia ter uma idéia do que tinha acontecido. E desligou.

Fui atrás do jornal. De cara a noticia: ” Mercado Público vendendo carne de cachorro”. Veio uma descarga forte de adrenalina do medo e veio, também, uma curiosidade pelo fato que acabou se estabelecendo em função de uma pequena e ingênua ação dos guris em largar os restos ali, em um conteiner cheio, certos que estavam que iriam recolher logo o entulho.

A noticia descrevia os fatos, com foto e tudo – vinha o texto:” foi encontrada restos e carcaça de um cão em um conteiner localizado à frente da ala dos açougues que se localizam no prédio do Mercado Público, estava acondicionado, esses restos do cão, em sacos para lixo, onde aparecem rasgados exibindo um cão “carneado” (…) . Serão apurados os fatos junto à Secretaria da Saúde e órgãos competentes, com inspeção rigorosa a esses açougues, por que se estão vendendo carne de cachorro como se fosse a carne bovina, isso terá que ser esclarecido perante à população….e bla…bla…bla…

Aquilo tudo que lia me causou uma curiosidade pela forma da noticia e como uma história se espalha, de forma rápida, baseadas em conclusões precipitadas que vai ganhando uma força gigante pela ação do que popularmente, se diz: ” quem conta um conto aumenta um ponto”…Mas, mesmo assim, fiquei apreensiva pela “responsabilidade” dos fatos. Mas enfim, iriamos nos encontrar no dia seguinte, então decidi, relaxar e aguardar.

Depois que sai em busca do jornal para ler a noticia, decidi dar uma passada no apartamento da minha irmã para dar um oi e ver meu sobrinho. Chego lá e encontro a sogra da minha irmã, Dona Maria, super cachorreira por sinal , também fazendo uma visita. Conversa vai, conversa vem, a Dona Maria vem com o papo: ” – Vocês leram a o Jornal de hoje!?? Viram que horror!!À meses estamos comendo carne de cachorro achando que é um bife de boi! Desde que li hoje cedo não consigo mais nem comer, tudo me enjoa; e não consigo olhar pro Tatí, imaginando ele morto, carneado!

Depois olhou bem séria para mim e disse: “- Tu viu?? Diz que quem cortou o cachorro deve ser um bom açougueiro, pois partiram o cão bem direitinho! E limpo, sem vísceras! Decerto tão vendendo fígado de cão como se fosse de boi, também, vá saber!?” E eu impactada com tudo: – ” Pois é, Dona Maria, vai saber, né!? E mudei o assunto.

No outro dia a repercussão pelo bairro já era grande: em cada canto que eu ia, ouvia uma barbaridade dessas: ” – Parece que já sabem quem é o cara que tá vendendo carne de cachorro, o açougue lá do mercado, o cara vai se ferrar!” Vinha outro : ” – Parece que um senhor sabe direitinho quem são os fornecedores da carne pro açougue, parece que criam os pobres dos cachorros pra isso…”

E assim foi se espalhando a noticia que veio pela midia, que às pressas julgou e tirou conclusões que poderiam dar uma boa noticia ( e deu). Comecei a ficar mais assustada com essa situação de “noticia solta para vender jornal”; fiquei impressionada como um mero descuido de 2 jovens estudantes, ingênuos a ponto de não imaginar que o conteiner pudesse não ser recolhido tão logo, pudesse ser causa de uma repercussão tamanha. Baseada na inverdade e, muito, no imaginário do povo.

Cheguei no consultório para a “reunião” com a Kátia sobre como iriamos agir frente à situação que criaram nos jornais com nosso cão da necrópsia. Já estavam lá o Jerônimo, o Apodi e a Maria da Graça. Logo depois de mim chegou o Fábio, a Inês , namorada dele ( estão casados até hoje!), minutos depois chega o “prepúcio” que estava presente,pois quando estávamos “ensacando o cão morto e necropsiado”, ele apareceu para um papo e um mate, e era final de tarde, já, e tínhamos esse hábito do encontro no consultório,. assim como ele, existiam outros amigos que compartilhavam nosso grupo de “Veterinários”, bastava ser boa gente e ter sido apresentado pro alguém ligado a um do grupo que vinha comungar desses nossos encontros de risos e ” papos sérios”. Movidos a chimarrão!

Estávamos todos muito assustados com o ocorrido, o Fábio e o Jerônimo nem dormiram a noite anterior e estavam com uma cara de apavorados e culpa; o Apodi, sereno como só ele…ria, ria , ria, sem parar, para ele tudo se resolvia sem muito estresse…A Kátia braba e culpada, a Maria da Graça, servia o mate com erva cidreira na água, “mãe de todos com era” tentava transparecer calma e acalmar os ânimos, a namorada do Jerônimo tentando ser solidária ao grupo…mas não era coisa nenhum…pois tinha um ciúmes mórbido do nosso grupo , da nossa amizade, a qual o namorado dela fazia parte…Mais ou menos assim era o clima da “reunião”.

Se fez um silêncio em todos – que pela primeira vez não nos colocou em longas discussões sobre o tudo da vida, tagarelando, largando opiniões e piadas, quando reunidos. Nossa cumplicidade maior no fato era que todos sabíamos da mentira jornalística que existia em cima de uma situação que foi nossa, de estudantes “imaturos”.

Ficamos entre dois pontos de vista: Assumir e chamar a imprensa ou esquecer tudo que aconteceu e “matar no peito” quietos. Nesse impasse, o Apodi, que era filho de Juiz de Direito, intuindo que nada daquilo iria redundar em maiores prejuízos como um todo, com o jeito matreiro, sereno e amigo dele, riu , levantou, e disse: ” Vamos deixar o povo se divertir… dentro de poucos dias tudo mundo esquece isso..e a gente sabe que não tem nada de verdade… e ria, ria e ria e dizia..essa foi boa!

Acatamos a sugestão do “sensato” Apodi e optamos em calar. Todos. E assim foi.

Ainda rolou uns comentários mais uma semanas, mas logo, logo, se perdeu no ar o fato, a noticia, os cachorros… por nada provado contra ninguém. O povo esquece e a mídia fatura.

Seguimos nos reunindo, vivendo, estudando, rindo, sendo amigos, tendo amigos, sendo colegas, parceiros, tomando muito mate, dividindo momentos de épocas de vida, de trajetória em comum.

Até que um dia a vida nos chamou através das nossas escolhas pessoais e nos separamos, alguns de nós permanece dividindo cotidiano da amizade até hoje, outros não. Mas se nos reencontramos, ao acaso, aos dias de hoje – 20 e tantos anos atrás sem nos vermos – nos reconheceríamos, embora diferentes pelo tempo passado.

A vida é feita dos momentos. Teia sutil que nos alimenta.

2 Comentários


Maria Izabel Scalco
em

Synara,li “Carne de Cachorro”, gostei muito. Realmente é uma grande verdade: “O fruto não cai longe do pé”. Além de respeitada profissionalmente, és uma ótima escritora. Avante !!!
Maria Izabel Scalco



synara
em

Oi Isabel!

Que prazer e surpresa tê-la aqui como leitora dos meus “causos”!! Muita Obrigada pelo elogio e pela força. Vindo de quem vem, é estímulo, mesmo! Pois é, estão dizendo que puxei ao meu pai, no dom da escrita; isso muito me orgulha e enaltece meus trabalhos literários, sem dúvida! Não carrego , o fato de ser filha de quem sou, como peso, jamais! Apenas como muita alegria de ter tido a oportunidade de ter o pai que tive, como pessoa e como escritor.
Um beijo à ti!
Synara


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