O anjo gato dos meus gatos


13 de maio de 2010 030Ser Veterinária um modo, ser médica de bicho outro. E minha maneira de ser e trabalhar sempre foi o modo médica. Hoje afastada da lida cotidiana por destinação que se carimba por opção, também.
E esse afastamento se dá do modo sem recursos hoje. Se bem, que sempre trabalhei sem muito recurso tecnológico, digamos assim. Era a cabeça – razão – e as mãos.
E por onde ando os bichos me acham. Talvez pelo faro, encontram médicos, como encontram comida.

Mal cheguei aqui e um gato preto a espreita. Sestroso, malandro e manhoso. Ajudou meus gatos, Polaca e Tatin, a conhecerem o novo ambiente. Do telhado para os muros alheios foi um pulo, e não sem colocá-los em apuros. Mas o “nego” – já batizado pela vida – abria seu miado espichado como um sino que badala avisando a dona que seus pupilos, neófitos, se penduravam na inexperiência do salto. E lá ia eu de escada, como apoio, para endireitar os passos tortos dos gatos infantes.
E assim o “nego” ficou: anjo negro dos meus. Ia e voltava. Voltava, comia, dormia e ia. Em madrugadas de estudo, soturno entrava no meu quarto e reclamava atenção e ração. Recebia as duas.
Em noites de sono e cansaço, dele e meu, se achegava matreiro e deitava na beira da cama. Fazia que não me via, como a pedir para ficar. Eu entendia, matreira que nem ele, e aceitava seu carinho e oportunismo da cama quente.
E assim foram passando os dias e meses. O anjo negro gato dos meus gatos, ia e voltava. Livre como Deus os quer.
Três dias atrás gotas de sangue apareceram pelo chão. Dos meus bichos não eram, pois fiz a inspeção. Na hora, meu coração couraçado de compaixão, no anjo negro pensou: É dele. Mas por onde andava o “nego”? Por certo, me procurou e não me encontrou naquele momento.
Hoje cedo, um miado se fez ao longe, longo como estrada sem curva. Parecia que trazia o lamento da cidade inteira na voz cortante.
Era o anjo chegando, sim. E com a pata inchada e erguida, como se uma asa lhe faltasse, mancava e vinha até mim.
Acariciei-o , ele queria comida e socorro. Me deixou olhar sua pata. Era um abcesso; por certo, ferida das lutas dos guerreiros dos telhados.
Eu sem ser mais a Veterinária, mas a médica de bicho sempre, sem recursos, que não fosse realmente a razão e mão tive que agir. E o “nego” embora anjo, traz em si a fera que se defende. E mesmo pedindo socorro, a sua razão é diferente da minha. Se sentisse dor, garras tem.
Feito gata malandra, usei a fome dele como recurso para limpar a ferida e dar o conforto minimo para que sua “asa” se recompusesse na natureza animal.
Cinco fatias de presunto dobradas, meio comprimido de norfloxacina (antibiótico furtado do meu cão Wilbor que está tomando para a bexiga) no meio. Um lasca do presunto, primeiro. E o “nego” se assanhou e levou. Mais uma, e mais uma bocada no presunto. Agora seu foco era todo no alimento. E o meu na ferida.
Entreguei o bolo dobrado de presunto direto na boca. Ele agarrou com fome e gosto.
Enquanto lutava para macerar aquele bolo, eu, rápida como um raio, espremi o abcesso, um miado chiado ele cuspiu, mas não largou o presunto. E mais um jogo de cintura minha e um iodo larguei por cima da ferida. Venci a luta. E o “nego” o presunto.
Agora a pouco, antes de eu contar essa história, a noite caindo com o frio a sustentando, o anjo dela, da noite, miou sereno, deu meia volta no corpo, com o rabo bem erguido, espichou a cabeça e levantou um pouco a dianteira do corpo pedindo a benção. E ganhou meu afago. Pedi a pata e ele me deu. Sequinha a ferida, embora um pouco inchado o local. Me levantei, ele sentou e miou. Mirei em seus olhos e entendi, que a razão ali era pouca, mas a confiança se fazia. E seu preço era uma lasca de presunto. Toma, “nego”! anjo gato dos meu gatos.
Destinação a profissão e a compaixão o compromisso humano.

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