Um novo olhar sobre os animais de companhia


Agosto de 2009 047

Como Médica Veterinária atuando na clínica de cães e gatos há 22 anos, sempre foquei minha conduta profissional em questões comportamentais ( ações e reações condicionadas), pois entendo que essas questões são precursoras dos maiores males orgânicos desses animais, de onde advém, a meu ver, o maior e, em tese, o único distúrbio comportamental dos cães e gatos: a ansiedade.

Isso ocorre devido aos excessivos apegos sentimentais dos seres humanos sobre os animais e também por um total desconhecimento das pessoas de com funcionam suas mentes e de como ocorrem suas capacidades de aprendizado e assimilação junto a atual civilização, profundamente urbanizada, que em nada condiz com o mundo animal.

Há 15 anos, não se via tanto apego e necessidade das pessoas de ter animais como companheiros sociais afetivos. Acredito que isso aconteceu em face de um mundo egoísta e consumista ao extremo, onde o progresso evolutivo do homem deixa-o cada vez mais solitário, ansioso e cheio de ilusões sentimentais. No meu ponto de vista, esses animais vieram – de forma equivocada – substituir as relações humanas como um todo.

A solidão e suas enormes ramificações são o abismo que as pessoas mais temem cair. Até mesmo aquelas que têm um núcleo familiar sólido, percebem-se, muitas vezes, sozinhas e perdidas. Isso fez  com que os animais de companhia perdessem o valor de benfeitores sociais que exerceram desde a pré-história, quando acompanhavam os homens nas caçadas e serviam como limpadores do meio ambiente ( comendo os restos das carcaças), além de serem guardiões, pelas suas fortes características de senso territorial.

Entendo que essas características de benfeitores sociais deveria ser resgatada. Os cães, por exemplo, podem ajudar na busca de pessoas perdidas ou farejar drogas e objetos, podem ainda servir como guiadores de cegos, como co-terapeutas na recuperação emocional de autistas, esquizofrênicos e crianças com dificuldades motoras ou hiperativas e, sem dúvida nenhuma, como simples companheiros.

Entretanto, percebo que houve uma distorção nesse potencial de benfeitor social que o cachorro, principalmente, exerce. Sem medo de errar 95%  das pessoas atribuem senso sentimental aos animais de companhia, vendo-os com capacidades humanas ( antropomorfização). Essa situação é a maior geradora de maus tratos indiretos aos cães e gatos, pois eles não têm capacidades sentimentais, mas capacidades emocionais condicionadas ( e bastante reforçadas junto ao cotidiano do proprietário), em que fazem leituras sobre seus gestuais, esperando, com isso, nada mais do que a recompensa desse comportamento condicionado.

Os cães, mais que os gatos, têm uma atenção constante sob seu dono para responder aos estímulos de memória condicionada. Isso os tem tornado neurotizados, levando a somatizações orgânicas que trazem danos significativos a eles e aos seus donos, que sofrem ao ver seu animal doente, além de projetarem-se com suas dores sentimentais.

Talvez esse artigo soe vago a alguns, mas é uma introdução ao que virá em outros, onde cada ponto será mais explicado. Fica aqui uma “inquietude positiva” e uma possibilidade de um novo pensar sobre tema tão vasto e atual.

(Artigo escrito em Outubro de 2008 para a revista Conexão- Fachesfe)

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