Tecnologia médica x simplicidade do bicho


Fotos cotidianas + Leca, Rafa, Dona e eu. 032 Com o advento da tecnologia na medicina humana, seria inevitável que se estendesse para a medicina Veterinária todo esse aparato que dá suporte ao profissional. Mas tenho percebido que está havendo uma dependência clinica exagerada a esses meios de diagnósticos, deixando a maioria dos profissionais atrelados a essas máquinas. A impressão que tenho é que esqueceram de usar a semiologia ( técnicas de exames clinicos básicos e fundamentais), de fazerem uma boa anamnese com o dono do animal, de fazer uso da observação analitica sobre todo o contexto de vida de um animal e de um ser humano, já que o cão ou gato é co-dependente do ambiente dessas pessoas, e me parece, ainda, que esqueceram de raciocinar.

De uns meses para cá os comentários postados aqui no site, tanto quanto os e-mails que recebo, retratam essa realidade. Tudo, ou quase tudo, é feito a base de exames complementares: hemograma, dosagens de enzimas, sorologias, biópsias, raspado de pele, exame de urina, rx, ecografia, tomografia e ressonância magnética. Vão ao fundo do fundo e muitas vezes, surpresos, nada acham. Ou não estão preparados para interpretarem tais exames.
A queixa é geral, os donos fazem a chamada “via sacra”, indo de colega em colega, onde um diz A, outro diz B, e vem mais um e diz que é C. Não formam nem a equação do senso comum ao que é biológico e muitas vezes óbvio aos olhos de um clinico.
E nesse vai e vem, quem paga a conta pesada de toda essa tecnologia é esse dono ansioso e perdido. Por que barato não são esses exames, sem computar as consultas, as taxas (?) de coleta para exames e as retiradas que os estabelecimentos clinicos fazem em cima dos meios de diagnósticos ( ou não fazem?). Mas o dano maior nem é o bolso desse proprietário – ou responsável pelo animal – mas sim o estresse que o bicho passa.
Vem um e punciona seu vaso, raspa sua pele até sangrar, outro chega e deita o cão ou gato na mesa e passa o transistor de um ecógrafo, outro mais adiante, não convencido do que vê ( ou do que não vê?) manda o dito cujo animal passear em um tubo de tomógrafo ou ressonância, outros são sedados para serem melhor examinados, onde, muitas vezes, precisariam estar em estado de alerta para uma melhor observação reacional. Essa, infelizmente, é a fotografia da atual medicina aplicada aos animais de companhia.
Mas, vejam bem os apressadinhos que estão lendo esse texto, não sou contra essa tecnologia, é uma aliada enorme para nós clinicos, no entanto, tem sua hora e condição para ser aplicada. Talvez a falha venha dessa pressa em saber o que o animal tem, talvez essa pressa venha de um dono muito ansioso que pressiona, mete medo, responsabiliza e, se bobear, ameaça o profissional com a justiça terrena, por que a “divina” nessa briga do mundo pet não se mete, mas protege o bicho, sim. Por que bicho por ser simples é forte, fácil de ser compreendido e protegido. Muito se engana quem pensa e aplica técnicas apuradas para a medicina dos cães e gatos. E muito ganha.

Temos plenas condições de colocar um olhar diferenciado a esses animais, não dando o valor da doença que damos a nós mesmos. Adoecemos por que vamos além das nossas capacidades, extrapolamos ao que comemos, bebemos, temos vicios perniciosos e nossa mente anda acelerada demais trazendo desajustes emocionais que minam nossa imunidade.

Crescemos como sociedade e potencial humano, entramos na era dos antibióticos, das vacinas, das cirurgias, dos tranplantes, da reprodução assistida e de toda essa potente tecnologia que nos auxilia perante nossos próprios erros em meio a essa roda vida chamada mundo.
Mas os bichos vivem em outra esfera emocional e fisica, eles são oriundos do mundo chamado simplicidade, natureza e perfeição de ciclo a ser cumprido. Nos baseamos neles para tantas coisas, até mesmo nossos cobais se tornaram no âmbito da pesquisa médico cientifica, mas sem querer o carregamos para dentro do nosso mundo complexo, cheio de onipotência, arrogância e com a maior falta de simplicidade possivel!
Baixem a cabeça, auscultem o coração ferido do ser humano, ouçam o ritmo cardíaco natural e cirscunstancial de um bicho, levantem os olhos para seus clientes, ofertem tempo, paciência, cumplicidade, sabedoria e conhecimento ( nossa obrigação, afinal escolhemos uma profissão) por que é disso que todos estamos precisando: humildade. Sejamos humilides refletidos na simplicidade dos nossos pacientes. As tecnologias? Continuarão cada vez mais ao nosso dispor, cabe a nós não nos deixarmos engolir por elas e nem levarem nossos animais de estimação de roldão nessa aceleração sem controle e sem limites. Simples, assim!

6 Comentários


patricia
em

Gostei muito do seu artigo e concordo plenamente com você.Em Dezembro do ano passado minhas cadelas começaram a se coçar de uma hora para outra,levei uma delas no veterinario, para mostrar a este e saber o que estava acontecendo,o diagnostico deles(marido e mulher)foi que minhas cadelas estavam todas com alergia a pulgas,quando questionei,:”as três”?,recebi a resposta que sim, as três,quando disse a eles que minhas cadelas nunca tiveram alergia a pulgas,eles simplesmente disseram que agora tinha,e veja bem,eles são veterinarios delas desde que nasceram,e faziam um mês que eu tinha levado a mais jovem a consulta pois apresentava nas patas coceiras,e eu havia acabado de pega-la da rua.ou seja,não fui escutada em nenhum momento,e depois de consultar outra veterinaria, o diagnostico:microsporum canis.maravilha né?e esse tempo(quase dois meses) todo elas sofrendo e eu gastando horrores com antibioticos e corticoides.Não adianta só olhar o cão,tem que se saber o historico,e só o dono pode ajudar neste sentido.



cristiana
em

gostei desse artigo, como todos seus artigos.
dra, estou precisando muito de sua ajuda, minha cachorrinha que peguei na rua deve ter uns 8 meses, so q ja tinha um macho aqui , dai antes dela entrar no cio, dei preve gest para ela , anticoncepcional, mas meu cachorro mesmo assim cruzou c ela ,estou commedo ela pode prenhar? pois parece q o remedio não deu efeito pois fala q bloqueia o cio, me ajude esse medicamento tbm tem para peq porte e grande para peq porte é até 10kg, ela tem 10,5 sera q foi isso teriaq da ooutro q é para acima de 10?



Synara
em

Oi Patricia. Uma realidade essa tua postagem…A profissão de médico de bicho deve ser melhor encarada aos dias de hoje. Não basta termos o titulo de “doutor” abrir uma loja com consultório anexo e achar que com isso se faz uma boa medicina. Mas evidente que não é a regra, mas que precisa ser mostrada essa verdade precisa. Luto para dignificar a profissão. E não faço isso para puxar clientes, nem consultório tenho mais. Me dedico a parte mais “teórica”na profissão ( estudos, consultorias, livro, site, luta na proteção animal, etc e etc). Dei um stop de 2 anos nos atendimentos, mas vou retornar nesse semestre na região de Bombinhas – SC e adjacências a atender em domicilio e com hora marcada. E sempre na luta da proteçào aos animais e da ética na profissão. Mas não a ética de cartilha “beaba”…
Abraço fraterno
Synara Rillo
Médica Veterinária



Synara
em

Oi Cristiana. Esses anticoncepcionaos funcionam melhor depois do primeiro cio, pois precisa haver o momento propicio pós ciclo ( cio) para serem usados. Geralmente, é dois meses depois do cio ou da gestação. O primeiro cio tem que separar a valer machos e femea. Mas a solução agora seria tu mandar castrar antes mesmo dessa possibilidade de gestação. Não adianta mais entupir com esse hormonio. Que no fim pode trazer danos uterinos a ela. Castrar é a solução!
Abraço fraterno
Synara Rillo
Médica Veterinária



Josi
em

Olá doutora Synara. Me desculpe por comentar aqui já que na realidade minha intenção é comentar sobre um outro artigo seu, mas como não tenho conseguido comentar lá… Então, na verdade eu gostaria que me esclarecesse algumas coisas sobre convulsões em cães. Eu tenho um vira-lata de 2 anos, que costumo chamar de Bêh, por tê-lo como meu bebê, e no início do mês ele ficou meio doente, começou a me parecer meio zonzo, andava caindo para o lado e coisas do tipo. Na cidade onde eu moro na há clinicas veterinárias, apenas algumas casas onde são vendidos medicamentos para cães, e quando ele desenvolveu isso, minha mãe foi até lá, levou-o e explicou o que estava acontecendo, eles não sabiam exatamente o que tava acontecendo e que por isso não poderiam receitar nada, mas pediram pra que fosse dada uma injeção nele, e esta deveria ser dada de dois em dois dias. Ele tomou a primeira dose em casa, e depois disso teve a primeira convulsão e no momento eu estava sozinha em casa com ele e me assustei muito, não sabia o que estava acontecendo, fiquei perto dele boa parte do tempo até que ele parou, deitou-se num canto e dormiu por bastante tempo, depois que acordou ele comeu bastante e tomou muita água. E agora, dois meses depois ele não voltou a ter nenhuma outra convulsão como aquela, mas tem pequenas convulsões, se é que posso assim chamar. Por exemplo, quando ele tá deitado, ele puxa a patinha, no começo puxava os lábios também, mas agora não tenho visto ele fazer mais isso, o olho direito as vezes piscava, agora também diminuiu. Em alguns momentos o puxar da patinha traseira é mais intenso e em outras não, tem momentos em que ele corre, late, brinca com os ursos de um jeito completamente normal, as pequenas convulsões se tornam praticamente imperceptíveis, mas em alguns momentos chega a ser irritante. Nesse meio tempo ele fica sem medicação alguma e eu tenho medo de que tenha outra convulsão como a primeira, e ao mesmo tempo tenho medo de leva-lo pra ser medicado, já que como disse antes aqui não tem clinicas veterinárias, tenho medo de leva-lo numa dessas casas de medicamentos e receitarem algo errado, entende? Por isso tenho passado as manhãs no computador procurando por pessoas que entendam do assunto para que possam me ajudar. Ah não sei se isso faz alguma diferença, mas esqueci de mencionar que ele costuma se coçar e lamber compulsivamente, e isso ele já fazia antes das convulsões, sempre acaba criando certos machucados com isso, a gente cuida, eles cicatrizam e ele abre outros…
Desde já, muito obrigado.
Seu artigo sobre as convulsões me ajudou muito.



Synara
em

Oi Josi. Pode ser que teu cão tenha Epilepsia Adquirida ( virus de ação tardia – cinomose um deles) ou até mesmo o que se denomina Epilesia Verdadeira ( origem “hereditária” ). Essas lambeduras compulsivas pode ser parte de convulsões ( Epilepsia Verdadeira). Talvez o mais indicado seja um tratamento bem feito e manejado com anti convulsivantes por um periodo de 6 meses direto, achando a dose que controle as convulsões tanto quanto a compulsão por lambedura. E depois rever como ele fica, para depois decidir se ele precisará por um periodo mais longo do que 6 meses, ou até mesmo por toda a vida dele. A droga de eleição é o Fenobarbital ( Gardenal), talvez associada com um medicamento que controle as ansiedades ( compulsão). Mas isso tem que ser feito com muito conhecimento das drogas, acompanhar o teu cão frente a resposta aos medicamentos e associar um bom manejo comportamental e de ambiente.
Veja bem, por aqui não tenho como me aprofundar no caso do teu cão, cada caso um caso. Mas tenho consultoria particularizada com um custo que tem validade de 30 dias, onde posso te orientar melhor e ao mesmo tempo fazer uma boa história clinica dele contigo e tentar estabilizar tudo isso que ele apresenta. Se tiveres interesse envie e-mail direto para synara@synararillo.com.br que te passo o valor.
Espero que me entendas, não é que não queira te ajudar por aqui, mas como é aberto os comentários, corro o risco de pessoas aplicarem manejos e medicamentos que não são comuns a todo tipo de convulsão. Certo?
Certa de tua compreensão frente ao que coloquei,
Abraço fraterno
Synara Rillo
Médica Veterinária


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