E o outro lado da história? Por que não mostram?


Junho de 2011 032 Começo introduzindo esse assunto por meio de  palavras ditas por eminente pensador há séculos atrás: ” ( …) Não se assustem com a palavra ensino. Não se ensina apenas do alto da cátedra ou da tribuna, mas também na simples conversação. (…) O que desejamos é que esse esforço dê resultados.”

Tenho insistido nos meus textos em assuntos que digam respeito à proteção animal. Palavras essas que a mim já soam batidas e ultrapassadas. Mas virou moda dentro de uma campanha que se faz necessária na atual conjuntura. Proteger os cãe e gatos, tanto quanto as outras espécies animais, virou assunto corrente. Há aqueles que de fato protegem por meio de ações que vem do ato consciente, mas há também aqueles que protegem tão somente pela via expressa do coração.

E foi assistindo ao programa Globo Repórter do dia 01/07/2011 onde o mote trazido era – mais uma vez – a proteção animal  com suas belas e contundentes histórias, que fiquei matutando: ” A via expressa do coração é faca de dois gumes para qualquer atitude que tenhamos de tomar, seja pelo aspecto pessoal quanto social. Quando transitamos pelo gume do fio cego podemos incorrer em mais erros do que acertos. Tudo que vem de forma passional sem passar pelo crivo da razão perde o peso de um dos lados da balança. Não existe o sentimento do cuidar sem que haja bom senso. Muitas vezes um ato de amor quando não balanceado tende a trazer mais prejuizos do que proteção.”

Com o desenrolar de todas aquelas histórias e analisando sob meu prisma pessoal e como profissional do meio Veterinário,  pude perceber alguns equívocos na forma em que era abordado e colocado tais relatos. Não senti - ou não percebi – o bom senso nas atitides praticadas por algumas das pessoas – não todas - que ali mostravam seus feitos de proteção animal.  Uma delas foi na  “senhora chicote”.  De que adiante tirar o chicote da mão de quem bate num animal de carga, chamar os policiais – claramente constrangidos perante aquela cena social ( e televisa) - e expor a miséria humana como responsável pelos maus tratos  aos animais? De nada adianta se não cursar com a compaixão pelos dois lados: ser humano e animal.

Será que aquele que passa fome, frio e vê seus filhos sem a  possibilidade de um futuro mais digno, e que carrega o lixo de quem veio mais afortunado, é o verdadeiro responsável pelos maus tratos ao cavalo? Ou é apenas instrumento passivo de uma sociedade que tropeça nos próprios erros? 

Por que não foi mostrado pelo programa a outra face do problema social que gera violência tanto para humanos quanto para os animais? Por que não convém? Ou por que não fazia parte da pauta?  Ensinar não é fazer o cidadão pensar? Acho que é. Mas a midia como um todo será que se presta  a isso? Nesse caso acho que não.

Louvemos a ” senhora chicote” para que possamos dormir em paz.

Claquete! Ação! Próxima cena!

E nela o bom médico a dar guarida aos animais silvestres que foram roubados de seu habitat natural  tirando-lhes a capacidade de voltar para a natureza.  E sigo perguntando: Quando esses animais vão parar nas mãos dos atravessadores será que não existe por detrás um ser humano que paga para ter um prazer egoista, para cultuar, admirar e fazer desses seres da natureza mostruário para lhes render algum bom dinheiro?  Eu acho que existe. Será que a sociedade que desmata, queima  e invade a mata em nome de algo maior não é também a indutora dessa prisão em que são jogados tais animais?  Eu acho que é. Embora exista o ato de compaixão do médico que abrigou tais animais, usemos a nossa capacidade de raciocinio para analisar que aquela vida não é compatível com a necessidade daquelas espécies.

E por que não foi mostrado pelo programa essa realidade que salta aos olhos dos que tem bom senso e conhecimento sobre tais fatos? Por que não estava na pauta? Ou porque acham que uma coisa não tem nada a ver com a outra? Eu acho que tem.

 Louvemos ao bom médico para que possamos dormir em paz.

Corta! Claquete!  Entra a cena dos pássaros que foram libertados das gaiolas !

E nos sentimos aliviados pela atitude carinhosa e pacienciosa do cidadão que convenceu aqueles que prendem os passáros que seus cantos soam melhores quando não são cativos de um coração egoísta.

Louvemos a esse homem para que possamos dormir em paz.

 Claquete! Ação! Foquem a  senhora com 60 cães e 150 gatos !

Que com sua bondade explicita abre as portas de seu sitio para albergar esses cães e gatos. Será que foi seu bom senso que prevaleceu ou foi seu coração generoso que se entregou ao olhar puro dessses seres? Pela minha experiência em acompanhar tais atitudes penso que seu coração foi mais forte do que a razão. Nesses casos que envolvem essas espécies  fico pensando que essas atitudes de compaixão transitam numa linha tênue entre a proteção e aos maus tratos indiretos. Albergar  esses bichos em grande quantidade exige que se tenha uma infraestrutura que possa oferecer bem estar também pelo aspecto sanidade. Aglomeração de animais gera doenças de magnitudes e causas variadas.

Por que a produção do programa não levantou tais questões para serem discutidas e pensadas pela sociedade? Por que não deu ênfase maior quando a senhora relata que animais são largados no seu sitio, trazendo à tona essa realidade de pessoas fazerem boa ação nas costas dos outros?  Por que apenas mostrou o ato humano – e pessoal – da proteção? Eu acho que é por que eles não sabem ensinar e, sim, apenas divulgar ações.

Louvemos a essa senhora que abriga tão elevado número de animais para que possamos dormir em paz.

Atenção! Preparar câmara para  próximo ato! Claquete! Ação!

E surgem as chamadas familias que fazem o papel de cuidadores de animais que ficam a espera de adoção. Por esses tentamos manter a esperança de um mundo melhor e mais justo.

Louvemos essas familias para que possamos dormir em paz.

Claquete! Cena dos que ajudam animais pelas ruas!

Talvez a parte mais coerente que foi mostrada. Ajudam sem confinar, cuidam da saúde e preservam a liberdade, bem maior dos animais. 

Louvemos o desprendimento desses cidadãos para que possamos dormir em paz.

Atenção, próxima tomada, claquete! Ação!

E mostram a história da cachorrinha que ajuda a que os motorista estacionem os ônibus. Aqui o ponto delicado que deve ser bem analisado quando queremos fazer a verdadeira proteção animal. Mostrar animais em ações que são perfeitamente condizentes as suas capacidades – o principio da inteligência existe na espécie canina, embora em proporções limitadas em comparação a espécie humana – pode gerar um sentimentalismo sem sentido nas pessoas. Assim como existem aquelas que vão em busca de um cão e gato que precisam que alguém assuma a posse responsável sobre eles, há aquelas que correm a comprar um cão achando que terão o principio da inteligência na mesma manifestação que a cachorrinha vira-lata, sem saberem que cada animal responde particularmente ao estimulo condicionado do ambiente onde vive. E me pergunto: Por que o programa não uniu esses dois pontos?  Por que não mostrou a realidade dos animais sem subterfúgio e sem glamourização? Porque não convém ou por que precisam entender mais o mecanismo do universo animal e do sentimento humano? Acho que ambas situações.

Louvemos a vida da cachorrinha para que possamos dormir em paz.

E por fim minha pergunta derradeira: Por que o programa não trouxe à tona os reais motivos para que exista superpolução dessas espécies aos dias atuais? Será por que não convém? Não sabem quais são? Por que não estava na pauta? Ou por que esse canal de televisão faz via de mão dupla, exibindo outros programas que induzem a que as pessoas valorizem os cães e gatos de forma humanizada? Onde também valorizam de forma errada os beneficios que supostamente tais animais trazem. Onde estimulam a presença do comércio exacerbado a essas espécies. Que mostram desfiles de roupas para cães, que serão “fashion” na próxima temporada. Que propagandeiam sem ter nenhum conhecimento técnico sobre as raças da moda. Não serão essas contradições socias que faz com que o abandono animal exista em niveis assustadores? Eu acho que são.

Afinal a midia tem seu papel calcado em que? Na divulgação de uma sociedade consumista  que vem ao interesse dos seus próprios ganhos? No alarmismo que vende?  No sentimentalismo barato que prende os ingênuos na frente de uma tela? No patrocinador que faz a máquina funcionar? Na vontade de seus leitores fúteis mas que garantem a assinatura mensal? No glamour social dos pequenos de alma? Eu acho que sim.

Mas tentam se redimir fazendo frente a um movimento onde transitam pessoas de boa indole, que lançam mão do bom senso, que trazem o verdadeiro respeito aos animais e que lutam em verdade pela causa.  Mas se realmente querem a redenção perante a proteção animal que venham sem um coração frágil – como são os da maioria que se penalizam frente aos animais, quando os encaram como entidades carentes, o que os animais estão longe de ser. Que venham para ensinar, não apenas para mostrar que essa realidade existe. Que venham arrancando as raizes para que esse mal não se espalhe. Não basta apontar o fato e sensibilizar as pessoas sem bom senso e com um coração meloso. Isso não ajuda verdadeiramente. Mas que dá ibope, isso dá!

Dá ibope para o canal de TV, para o apresentador, para os produtores e todos os envolvidos nessa empreitada chamada  de proteção animal(?).

Louvemos realmente aos puros de coração  que foram mostrados no programa. Podem alguns deles  falharem na ação da proteção, mas na intenção são abençoados e perdoados por Deus. 

Pensemos todos nessas questões que levantei por obrigação de cidadã e de Médica Veterinária. Nos comovermos e aplaudirmos a boa intenção que trouxe o Globo Repórter não basta ; dormir em paz por saber que existem os que tentam – sozinhos - proteger os animais  é mais do que comodismo e conveniência, é covardia. Acordem!

Ate o próximo comentário.

8 Comentários


Maria Cecilia P A Brasil
em

Este texto nos faz pensar em várias formas de se relacionar com os animais. Mas o que me chamou mais atenção, foi dar a exata noção de como temos que nos relacionar com a mídia que tenta manipular a realidade.
Parabéns pelo Artigo!
Abraço



mariângela
em

Oi Synara. Não assisti ao Globo Repórter, mas todos conhecemos o “modelito” sensacionalista da Globo em especial, mas dos meios de comunicação em geral. Sobre sua “prelação no deserto”: acho que nada fica em vão no universo. Pode ser que apenas meia dúzia de conhecidos seus leiam o que vc escreveu, mas nós também temos conhecidos e assim as idéias passam de boca em boca, de ouvido em ouvido de cérebro em cérebro e um dia se transformam em mudanças. O que vc não pode esperar é em presenciar essas mudanças. Sei que seu lado espiritualista sabe que o mundo só anda para frente. Por favor, continue escrevendo. Um abraço.



Synara
em

Oi Mariâgela. Meu site hoje tem mais de dez mil acessos ao mês, portanto, se lêem alguns post, já me deixa por demais de contente! Mas o facebook foi apenas uma maneira de achar belas pessoas com quem pude partilhar bons momentos e experiências com os cães e gatos – entre elas tu e a Ane, que me estenderam à mão para ficar com 3 gatos que dei abrigo, por meio da boa ” ação nas costas dos outros” ( sabes bem a que me refiro). Mas que por contigências da vida ( e necessidade) precisei partir de Porto Alegre. Saber que eles ficaram em tão generosas mãos me conforta o coração…porque não foi fácil para mim deixá-los. De todo modo, te sou grata por essa “pulverização” dos meus ideais por meio dos teus contatos para que possam , pelo menos, parar e pensar. Querer a razão sobre tudo, só se fosse louca… Se vou presenciar ou não as mudanças que se fazem urgentes para um bem estar animal e para uma harmonia entre os humanos, é o que menos me importa. Justamente por ser espirita. Faço todo esse trabalho por função e por consciência aberta. Mas saber que sou compreendida por ti e mais alguns já me faz vencedora nos meus propósitos.
Muito obrigada pelo teu comentário.
Um grande abraço e beijo.
Synara



Synara
em

Oi Cecilia. Pois então…Não acho que nesse caso especifico foi manipulação de uma realidade, apenas deixaram de mostrar o outro lado da “moeda”, o que no meu entender ficaria mais coerente para passarem a mensagem que pretendiam. Muitas pessoas ainda vêem os animais como seres indefesos – que estão longes de serem – estão apenas acuados por uma sociedade pérfida e materialista ao extremo. São aos dias de hoje “objetos” do bel prazer sentimental dos seres humanos solitários, perdidos e confusos em meio aos prazeres fugazes. Eles são vitimas, mas não podem ser analisados apenas pela visão sentimentalista. Ai, perdem eles e perdem os humanos da mesma forma.
Mas que de maneira geral a midia é tendenciosa, isso é real. E quem puder abra os olhos.
Grande abraço.
Synara



karina guilhermano
em

Realmente Synara, tuas idéias do texto tem muito sentido. Vi a reportagem e tb questionei vários aspectos. E o mais sensato foi a castração dos gatos nas ruas … temos q poro cabeção a funcionar ! abraço



Synara
em

Oi Karina. Pois é, está na hora de começarmos a pensar com mais realismo perante a vida como um todo. Acobertar os fatos principais não traz mudanças. Num primeiro momento meu texto talvez possa soar soberba, que sou “dona da razão” ( como li em e-mails que recebi), mas quem me conhece sabe que estou longe disso tudo, e que sei justamente qual minha função na sociedade , tanto como cidadã que observa, pensa, analisa e faz a critica construtiva, quanto como profissional. Não é fácil dar a “cara para bater”, posicionar-se exige retidão de cárater, coerência e alguma vivência. Com meus quase 50 anos de vida e 25 de profissão tenho arriscado-me a dizer que essas qualidades sei que tenho. E fiz por merecer. A vida é feita de merecimentos. A minha parte eu estou fazendo, e no meu caminho encontrei mais espinhos do que flores; e foi com esses cardos que aprendi. Calar-me para fazer jus ao que quer a maioria, não vou. O que quer a maioria não quer dizer que seja o certo. Eu bem sei as sequelas que fiquei por transitar pela proteção animal, sozinha, enfrentando a boa ação nas minhas costas e a covardia de alguns quando se deparavam com um animal necessitando de compaixão, pelo menos. Assistir a um programa sobre abandono animal sentado confortavelmente em seus sofás, com o coração cheio de “peninha” dos pobres bichinhos é muito fácil. Tem aquele ditado que diz: ” Está com pena? Leva para tua casa e cuida”. Pode ter certeza que 95% das pessoas virariam as costas perante esse pedido de levar para sua casa. Se há impedimentos reais para que levem para suas casas, pelo menos que parem de compactuar com tudo que há de equivocos na convivência com os cães e gatos. Já estariam ajudando a baixar a estatistica do abandono e descaso com a vida de um bicho. Mas o que esperar de uma humanidade que ainda põe no mesmo patamar um bicho e um ser humano?
Obrigada pela força em te manifestar. Tu e o Fábio como clientes ( e hoje já amigos) sei que têm plenas condições de compreender-me, por que eu sei da consciência de vocês e do amor genuino que sempre nutriram pelos animais. E sem os descaracterizar. E sem explorar a boa vontade de um Médico Veterinário.
Um abraço!
Synara



Janaína
em

Tiro o chapéu por suas palavras..Parabéns. Poucas pessoas enxergam essa realidade!



Synara
em

Oi Janaina. Obrigada. E por certo és uma dessas poucas…Com tua opinião postada me sinto menos só nessa luta.
Abraço fraterno
Synara Rillo
Médica Veterinária


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