“Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura…” Será?


                         Junho de 2011 038                             Volto a postar meus artigos depois de quase 6O dias sem atualização.  Não que eu não sentisse necessidade de manter o trabalho e compromisso com o site – tanto é que as respostas aos comentários aqui postados estão em dia – mas novamente  me veio a sensação de estar lutando feito Dom Quixote em meio aos seus devaneios, e nem tendo um amigo Sancho-Pança para me trazer de volta à realidade. É com esse sentimento que me debati durante esses meses sem produzir nada: o vazio do já ter dito e repetido o que está escancarado à frente de todos. E ninguém quer ver. Ou não podem ver? Ou não conseguem ver…    Muito embora fazendo uma analogia com o libertário personagem de Cervantes, não é irreal e nem tampouco ficção a minha luta perante a profissão de Médico Veterinário. Proteger os animais é compromisso de todos, não somente  dos que perambulam em ideais e compromissos firmados, feito eu. Não foi meu titulo de graduação que me fez protetora dos cães e gatos ( espécies com as quais melhor lido, mas essa proteção se estende ao todo animal) mas sim uma tomada de consciência que tem raizes profundas no  meu ser. Por trazer essa postura como ser humano é que me tornei com o decorrer dos anos uma critica voraz ao rumo que tomou a convivência – e conveniência – dos cães e gatos junto às pessoas. 

E começo a fazer essa análise, que é  ampla, partindo de dentro do sistema educacional na formação do Médico Veterinário. Sim, de educação, porque até onde sei,  formar um cidadão na sua capacitação profissional é educá-lo para enfrentar uma linha de frente perante a sociedade em que vive. O ensinamento nem sempre vem envolto de processo educativo. Educar é dar condições para que possamos ter o pensamento analitico, critico, construtivo e consciencial. Todavia, não é o que se reflete nas faculdades de Veterinária. Dentro dessas instituições aprendemos conceitos, técnicas, habilidades, manejos e alguma coisa de comportamento espécie especifica. Em tese, um curso superior nos oferece essas oportunidades. E apenas com um preparo teórico. A prática, até então, está incluida no quesito habilidade dentro do aprendizado.

 E com o decorrer dos anos  está sendo exigido cada vez mais dentro das instituições de ensino os niveis de graduação, que vão se estender pela especialização, mestrado, doutorado e pós- doutorado. Isso é válido? E muito válido! Mas, ao mesmo tempo, estão  formando profissionais com conhecimento teórico encarcerado, limítrofe e sem um raio de ação que não seja uma determinada área de pesquisa ou atuação.

 Se nos remetermos ao tempo que existe a faculdade de Medicina Veterinária – 250 anos – podemos observar que muito dela se modificou nesse espaço de tempo. O homem evoluiu, e com ele suas necessidades pessoais e  os valores sociais como um todo.  Ser Médico Veterinário era fundamentalmente ser um agente de saúde que visava a produção animal pelo aspecto sanitário indo até os meandros das zoonoses.

Zimbros e Governador C. Ramos - 2010 056  Gira o mundo em compasso acelerado, e o cão e o gato aparecem nos dias de hoje como forte estímulo para que alguém tome a decisão de ser Médico Veterinário. Essas espécies adquiriram por meio do homem urbano um valor afetivo e monetário em potencial. Tem gente amando mais bicho do que gente. Há pessoas em circulos de solidão trazendo a ilusão de que esses animais de estimação produzem um bem estar sentimental. Doce engano. Bicho diverte, alegra, pacifica e faz companhia presencial mas está muito longe de ser um ente que venha satisfazer a carência existencial – e afetiva  pura – de um ser humano. E é nesse nicho de valorização exagerada aos animais de companhia que a Medicina Veterinária voltada ao atendimento dessas espécies age e peca.

Age porque se capacitou para melhor atender os cães e gatos e isso é muito positivo, haja vista a relevância – mesmo que equivocada - que esses animais possuem para seus donos, e  agindo pode oferecer todos os suportes de que eles necessitam para viverem com saúde. Mas peca quando deixa de dar a proteção verdadeira a esses seres. Peca quando humaniza esse atendimento aos cães e gatos; peca quando deixa de dar suporte sentimental ao dono desse animal que chega perdido em meio as doenças de seres de outras espécie. Peca quando não tem a destreza profissional para atuar devidamente,  onde acaba sendo um indutor das doenças iatrogênicas ( por inabilidade ou desleixo) e peca muito mais quando induz venda sem sentido a esses donos.

Ser um Médico Veterinário comprometido com o real bem estar animal e com o devido respeito ao ser humano que se apega em demasia aos seus animais é colocar seus titulos na gaveta e trazer à tona seu amor genuíno a esses seres. É entender que bicho quase não adoece, que é estóico por natureza. Que todo esse aparato comercial que está erroneamente atrelado a seus estabelecimentos é um potente destruidor da estabilidade orgânica e comportamental dos cães e gatos. E que, da mesma forma, descapitaliza de forma exagerada aqueles que querem dar qualidade de vida a seus animais. Bicho não precisa de luxos mas de compreensão e conhecimento sobre suas reais necessidades.

 Cães e gatos precisam de alimentação devidamente equilibrada, mas temos que saber orientar seus donos que a principal fonte de energia que vai estabelecer as reações quimicas para uma nutrição eficaz é a proteina animal. Não podem ser entupidos de milho, soja e sorgo componentes que mais prevalecem nas rações atualmente. Temos que saber tirar os adereços supostamente nutricionais que vão repercurtir em venda sem fundamento. É da nossa competência conhecer fisiologia básica e  não nos deixar envolver por um vendedor ( muitas vezes colegas sendo usados pelas grandes empresas, travestidos de informantes técnicos) a nos dizer que uma ração é melhor que a outra, visando metas de vendas e nos ofertando brindes à revelia.

O profissional comprometido com a proteção animal é aquele que evita banhos em exagero para proteger a pele dessas espécies, é  aquele que ajuda os donos a entender o universo particular dos animais; que eles cheiram diferentes de nós; que eles têm a capacidade de auto higienização, que eles não precisam escovar os dentes mas, sim, ter uma alimentação correta e condicionada onde terão dentes mais limpos e sem doenças peridontais. É explicar que um confinamento em demasia os fazem ganhar peso e os tornam ansiosos; que a socialização interativa entre espécie é necessária e possivel; que a castração é benéfica para uma boa convivência inter espécie; é explicar o  mecanismo de termo regulação deles onde a roupa não é importante, desestimulando esse artigo de venda. 

Zimbros 245 Ser um bom Médico Veterinário é ajudar a estancar a venda racial por moda e vaidade; é não vender animais em seus estabelecimentos; é estimular a adoção dos animais abandonados; é combater sem piedade o criador de fundo de quintal que descaracteriza geneticamente as raças perpetuando alterações genéticas e trazendo as dores nos animais. É alertar aos donos que bicho morde – podendo ser uma arma apontada para eles mesmos – e que ter sob seus controles tais reações instintivas é saúde comportamental dos mesmos, tanto quanto estabelecer elos de boa convivência inter e entre espécies.

Ser um Médico Veterinário que orgulhe sua escolha profissional é não bancar o status bobo da doutoria, do jaleco branco e de um estetoscópio pendurado em seus pescoços feito escapulário a pedir proteção e salvação pelos erros cometidos. Ser um bom profissional desse ramo é olhar o todo e ver-se como parte de um compromisso firmado com a saúde plena, trabalhando muito mais na prevenção do que na cura.

Dificil vocação a seguir quando a escolha  se baseia no impeto social de uma época. As profissões não podem ser buscadas em beneficio de um ego que destrói ao invés de fazer ligações com o todo. Tenhamos a coragem de um Dom Quixote para lutar por novos paradigmas em uma profissão que abre leques em sua função. Menos ganância, menos titulos e mais sabedoria. E é com eles, nossos pacientes, entes mais puros e simples, que podemos angariar experiência e consciência tranquila.

Façam  suas “ mea culpa” quando compactuam com toda essa distorção de valores fazendo dos animais instrumentos de mão dupla, onde supostamente os profissionais oferecem o melhor em suas Pet Shops coloridas, brindando com falsos beneficios seus pacientes caninos e felinos, que mais cedo ou mais tarde retornarão para seus consultórios para fortificar esse elo perverso do ganho farto e perigoso, numa sociedade já corroída e corrompida por si só.

Zimbros e Governador C. Ramos - 2010 211 Urge o tempo e berram os animais por uma sociedade mais justa e mais humana. Que os profissionais da Medicina Veterinária voltada aos pequenos animais digam não ao modelo Pet Shop. Cerrem suas portas de vendas inúteis e abram seus consultório por meio de um coração valente e amoroso, e que , ai sim, tenham mão dupla, aquela que protege e acolhe.  Que protege por meio da verdade preventiva e que acolhe na dor inevitável de quem está vivo.

 

                                                        

Estou de volta. Até o próximo artigo.

10 Comentários


Vera
em

Que bom que voltas com “tudo”!!!
Fazes falta em suas palavras e ensinamentos.

Minha querida, “Água móle….”, bem , nasci e fui criada em uma região rodeada de rios maravilhosos….e muitas pedras, de minha doce infância, hoje se projetaram ha muitos metros e em posições bem diferentes de então….Desta forma, água móle….não furou nenhuma pedra de meu parco conhecimento humano, mas, algumas foram reposicionadas buscando maior harmonia do conjunto e enriquecendo sobremaneira nossa paisagem.Rsssrssssssss

Sabes que vale a pena lutar sempre, em pequenas porções sempre atingimos mudanças que se tornaram significativas.

bom fim de semana!
[] Vera



Inge
em

Oi Synara,

Não desanime. Nossa vocação fala mais alto e lendo seus artigos sobre convulsão, vejo que sua compulsão é cuidar e defender os bichos.
Você tem sorte de estar trabalhando na sua área. Os Homens não ligam mesmo para os bichos e querem ser chamados de humanos. Então, bem, que sejam. Nós é que temos o orgulho de sermos animais.
Gostaria de aproveitar os seus vastos conhecimentos para que escreva sobre alimentação e nutrição de cães. Tenho uma labrador (9 anos) que adora comer frutas e gostaria de saber se alguma pode fazer mal a ela.
A vida nos leva por caminhos que nem sempre vão aonde queremos, mas não devemos desistir de voltar, nem que seja informalmente.
Veja o meu site no link acima.
Um abraço,

Inge



synara
em

Oi Vera. Pois é, se não fura a água, se houver uma reorganização e reposicionamento já é um movimento…Não sei se voltei com tudo, mas continuo com meus gritos de alerta sobre a situação dos animais de companhia aos dias de hoje. Tive um despertar há anos atrás e sei que nem todos despertam ao mesmo tempo, por isso a passos lentos e serenos espero ainda ver um resultado…Quem sabe?? Deus sabe..
Recebi teu e-mail. Obrigada pelas fotos e pelas noticias. Ando sobrecarregada de trabalho e estudos ( intensos agora, voltados para outro projeto e interesse meu), por isso não consigo particularizar os e-mails. Mas veja, guria, longe de eu estar sentindo falta da cidade grande. Meus recolhimentos e introspecção fazem parte da minha personalidade. Onde, talvez, me reabasteço. Puxa, que ruim, tua mãe na luta dela, enfrentando essa doença…Mas sei que com teu carinho ela vai cumprindo o ciclo dela.
Muito legal as fotos!
Grande abraço.
Synara



Synara
em

Oi Inge. Não desanimo, não! Já tem artigos sobre a alimentação dos cães e gatos aqui no site. Procura na busca do site por: manejos alimentares. Tem alguma coisa ali que talvez possa te ajudar. Dei uma passada no teu site. Bonito trabalho e deu para perceberes que és uma pessoa com boas qualificações.
Abraço fraterno
Synara Rillo
Médica Veterinária



Tania
em

Oi Synara,adorei seu blog, tenho um york de 7 meses q começou a ter convulsões uma atras da outra num espaço de 30 minuto de uma para outra por muitas horas até q eu pudesse leva-lo ao vet,q me disse q ele era epilético, e agora 15 dias depois ele não teve mais convulsões mas está cego! eu amo demais.



Synara
em

Oi Tãnia. Dá um tempo para ele…30 dias…de repente não é cegueira definitiva…pode ser transitória…
Abraço fraterno
Synara Rillo
Médica Veterinária



tania
em

Também acho, mas hj ele está com muita febre, apesar de nao ter um termometro, eu o senti muito quente, ele tremia muito e o ar que sai do nariz e da boca estava quente demais, ele ainda não parece estar sentindo dores, mas eu acho que a urina dele está com uma cor amarela muito forte,pode ser infecçao urinária? por isso as convulsões? vou leva-lo ao veterinário dele amanha sem falta, e a tonteira e cegueira dele seria do gardenal? ele toma 1/4 de comp de 12 hs/12hs!ele está dormindo muito, estou dando agua e sopa na boca. beijos



Synara
em

Oi Tânia. Leva no Veterinário que atende teu cão…ele saberá agi. Tem que saber…se formou para isso..
Abraço fraterno
Synara Rillo
Médica Veterinária



tania
em

Oi Synara, levei ao especialista, ele me deu duas possíveis doenças: Hidrocefalia ou shunt porto hepática. obrigado por sua atenção, beijos fique com DEUS!



Synara
em

Oi Tânia. De nada…Boa sorte para ti e teu bichinho.
Abraço fraterno
Synara Rillo
Médica Veterinária


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