A Farra do Boi – nua e crua


Zimbros 191Estou com a mente cansada e por isso me recolhi nos textos que publico com mais frequência aqui no site. Assim como, me afastei dos meus escritos todos ( livros, artigos em geral, crônicas, enfim, meu lado de quem se dedica a escrever, pesquisar e observar o mundo e a sociedade atual), segui apenas com os trabalhos diários e necessários ao viver.  Normal passar por esse vazio mental – eu pelo menos passo – para quem escreve. Quando ocorre esse vazio,  me percebo em reabastecimento, em todos os sentidos. E me respeito no que posso.

Mas ao mesmo tempo, dentro desse vazio mental,  eu queria a todo custo postar algo para o site e minha cabeça simplesmente não me obedecia.  Talvez ela não me obedecia por que não vive sem meu coração, e ele andou alheio por uns dias. E minhas inspirações e idéias surgem muito dele. Pois vejam, como os acontecimentos vão se encadeando para atingirem um objetivo – nesse caso estimular meu coração para escrever e defender os bichos:  Segunda-Feira que passou uma amiga esteve lá em casa para um papo breve e comentou que estava de folga – ela trabalha com bar e afins, portanto, finais de semana e feriadões para ela são dias de trabalho – e como estava um dia lindo de Outono  convidou-me para irmos tomar um banho de mar. Sou bem preguiçosa para algumas coisas e relutei um pouco, achei que estava frio para banho de mar. Mas de um impulso a convidei para fazer trilha na praia de Zimbros, trilha essa já percorrida por ela, eu não conhecia ainda. Ela  topou a parada. Combinamos tudo  e dentro de meia hora já estávamos na boca da entrada para seguir a trilha.

Eu com minha mochilinha básica nas costas, cheia de repelente pelo corpo, camiseta, bermuda e chinelos entrei trilha a dentro esperando encontrar as tais praias que dizem ser lindas  em Zimbros. As praias que compõe a trilha são a do Cardoso, praia Triste, a da Lagoa e a praia Vermelha. Trazem uma natureza ainda muito viva e forte, segundo comentam os que fazem a tal trilha e se deliciam com suas belezas naturias e suas praias de água límpida.  Quando eu adentrei a  mata fui tomada de uma urgência interna e comecei a andar rápido e de uma maneira relativamente ágil , sendo, inclusive, alertada pela minha amiga para que eu fosse mais devagar, já que o terreno da trilha é sobe e desce, pedra, galhos, portanto, temos que ir atento, pelo menos quem não conhece o local ainda. O meu caso. De certa forma me desconhecia nas minhas reações enquanto caminhava, era um misto de querer ir a frente e retornar ao mesmo tempo, como se um medo me invadisse – mas o sentimento verdadeiro não era medo,  por que eu me sentia determinada a seguir a trilha. Ems em face desse frisson interno que passava, me virei e pude perceber a alguns metros de nós um senhor caminhando a mesma trilha. Comentei com minha amiga que avistei um senhor, e ela disse que eu não me preocupasse, que muita gente faz a trilha. Mas estranhei o fato por que era uma Segunda-Feira pós feriado de Páscoa, turistas seria improvável, moradores da comunidade sim, fazem a trilha vez que outra, mais os jovens. E ele não tinha o aspecto de gente da comunidade de Zimbros. Vestia calças, camisa branca e um boné. E caminhava rápido na mesma direção que nós. Por via das dúvidas, peguei uma pedra que cobria toda minha mão e segui. Tive uma paranóiazinha com tudo que estava ocorrendo e achei melhor ter aquela pedra comigo.

Fomos indo com mais tranquilidade na caminhada para observá-lo melhor,  o que facilitou ao senhor nos alcançar, que passou reto e apressado por nós. Comentei  com minha amiga senão era melhor voltarmos, que eu não estava sentindo-me segura naquele local – outra paranóiazinha minha surgia. Ela disse que eu não me preocupasse que dava para seguir até a primeira praia. Seguimos. Eu já mais devagar, sem a urgência e agilidade de quando entrei pela trilha, passei a sentir o local, olhava para os lados, observava…Nisso ouço a voz da minha amiga exclamar: ” Ué, que porteira é essa??  Quando subo o olhar vejo ela e o senhor que passou por nós parados em frente a um portão feito de troncos de árvores, amarrados com cipós e cordas. Cortavam o caminho da trilha com esse portão.  E logo ouvi o senhor dizer: ” É o boi que está solto, para ele não passar em direção a praia de Zimbros.”  Perguntei, sem entender nada ainda, que boi era esse, e me respondeu que era a farra do boi.  

Aquilo me acendeu, pois eu queria entender a farra do boi  de perto já fazia tempo. Num impulso segui a trilha, pulei o portão, e fui descendo em direção a praia do Cardoso. A partir desse ponto comecei a ouvir vozes e risos que vinham da beira da praia – eu estava ainda no ponto alto da trilha em direção a praia - e caminhei um pouco mais, e  além dessas vozes eu passei a ver pessoas sentadas em volta de árvores, uma lona azul servindo de barraca, mais alguns passos olho para os lados e começo a ver um amontoado de pessoas – mais homens nesse momento – parados em direção a beira do morro que depois é uma descida de galhos, pedras e o mar. Nesse momento senti uma sensação de perigo, pois ouvia aqueles homens me dizendo é melhor a senhora voltar…o boi está solto…Como se  a me meterem medo. Até por que, em algus momentos eu resmungava o meu descontentamento com tudo aquilo, com a farra do boi. Decidi relaxar como proteção, dei uma olhada para baixo do morro, perguntei onde estava o boi, me apontaram, mas não consegui visualizar o bicho, parei observei, analisei e mais que tudo senti a podridão que é essa suposta tradição açoriana que se mantém a base da ignorância, da falta de conhecimento, da falta de cultura, do voto garantido a cada pleito e, mais que tudo, que se mantém a base da pobreza de espirito.

Sai  daquele local muito indignada, muito certa, e ironicamente, serena. É preciso chegar perto do podre do humano para entender do que ele ainda é capaz. E aqueles que acuam um boi por puro prazer deturpado apenas soltam seus demônios moldados por uma chula tradição que o tempo já desfez. Tudo que vira culto dá cegueira, e da braba. A farra do boi ainda cega e vai cegar muita gente. E é na cegueira que o sangue e a dor jorram do boi pela mão do homem. Abram seus olhos, como abri os meus lá na trilha  e me deparei com uma enorme pobreza de espirito, de corpo, de gente drogada pela tradição, que  se engana achando que são perdoados por  ser tradiconal tal ato de crueldade  explicita com animais. A farra do boi é a farra do pobre, do perdido, do bandido, do cruel, do palhaço que a sociedade paternalista pinta a cara e manda  para representá-la, a farra da ilegalidade, da falta de senso e da sobra de ignorância.

Ainda zonza por ter sido pego de surpresa por uma farra do boi e saindo da trilha, vi gente correndo, uma poeira forte na estrada do morro, e gritos de policia, policia , me afastei e fiquei por uns minutos  observando a correria. Me impressionou a quantidade de pessoas – entre homens, mulheres, adolescentes e crianças - que saia daquele mato em face da chegada da Policia Militar do Municipio de Bombinhas – SC que foi debelar mais uma farra.  É preciso que os farrarista se sintam feito um boi acuado, recebam lições, ensinamentos e que Deus os protejam de tamanho atraso em suas vidas. Eu pedi perdão para o boi em nome do ser humano e voltei para casa com o coração tocado por demais por tudo que vi. Saí para um passeio tranquilo, de encontro a natureza, numa cidade turistica e me deparo com algo que tanto falam e comentam na região litorânea de Santa Catarina: Uma farra do boi. Não tive como conter esse artigo, escrevi como ser humano, como Médica Veterinária, como turista e como moradora de uma região que de forma escondida e cada vez mais cruel – é um  ritual satânico sem sentido – cutuca e cultua a dor do boi e de si mesmo. E escrevi com a devida proteção animal no meu coração. E Deus sabe disso. E a mim isso basta.

Até o próximo artigo.

8 Comentários


Miriam Beatriz Barbosa Correa
em

Synara:
Quase sem palavras, tento te escrever o quanto me tocou teu relato, o quanto contigo – e principalmente com o boi – me solidarizo,ou, me penitencio, pois como bem dissestes, fomos nós, os humanos que os temos, aos bois todos os que já foram torturados ao som de risadas, acuados em nome de uma tradição já sem sentido, já esquecida do porquê.



Synara
em

Oi Miriam. Obrigada pelas palavras. Pois é, está na hora de termos uma visão mais verdadeira sobre os animais. Embora ainda necessitamos deles como fonte de proteina ( no caso os bovinos), nada justifica a crueldade que gera sofrimento. A humanidade ainda passa fome, está em processo de evolução e por isso esses animais se “doam” para dar a vida e energia para os seres humanos. São poucos os que podem prescindir da carne como alimento, mas aqueles que conseguem é um bom caminho…. Mas há de chegar um dia que o ser humano não mais comerá carne…Deixará de ser uma escolha pessoal para ser um evento social coletivo. Demorará, mas virá nas futuras gerações de seres humanos.
Bom tê-la por aqui, me lendo. Ainda mais tendo sido colega…Embora não seguiste na profissão tens um coração amigo dos bichos.
Grande abraço!
Synara



Miriam Beatriz Barbosa Correa
em

Synara:
Assim como a farra do boi, acho que o consumo de carne como fone de proteína é um sofisma tão grande fundado numa tradição cultuada de modo idealizado, o gauchismo bairrista, que conhecemos bem sendo gauchas. Sou vegetariana há muito tempo, quase logo após desistir da faculdade de veterinária, que naquele tempo ainda- não oficialmente, mas majoritariamente através de seus estudantes e mesmo professores – reproduzia os valores do latifundio e valorizava a medicina como meio para assegurar lucro aos criadores extensivos bem como perpetuava a cultura do heroi grileiro que vagava pelos campos e maltratava seu cavalo… Meus filhos, de 5 e 8 anos, ao assistir ao Globo rural, viram as vaquinhas e logo após o abate cruel. Fizeram as óbvias conexões e me perguntaram chorando “mamãe, a carne que a gente come é a vaquinha morta?”. Pois desde então se transformaram m vegetarianos por opção própria, sem ter necessitado minha interferência. Agora obtem as proteínas através de castanhas, frutas, folhas entre outros nutrientes. Aliás, saindo Rs, me dei conta de como nossa alimentação é precária, excesso de proteínas e deficiência de outros nutrientes tais como fibras e vitaminas. Indo mas além, poderíamos analisar a questão da alimentação da humanidade. Será que toda essa devastação de floretas e margens de rios para o plantio da soja e pastegens para gado vai mesmo para alimentar os segmentos pobres da natureza? Pois te digo uma oisa, mesmo num restaurante vgetariano me nego a comer soja, pois vem dessa indústria que todo no deixa de pagar os exorbitantes financiamentos de produção e depois organiza uma marcha de tratores impotado Congresso Nacional para obter a legalização de sua inadimplência…Por isso tenho meu pomar, minha horta e so adquiro produtos orgânicos… Beijos

mais para nós gaúchas



Synara
em

Ola Miriam. Opinião publicada. Cada um pensa, analisa e aplica o que mais lhe convém. Do pessoal ao sócio politico econômico. Obrigada pela participação no site.
Abraço fraterno
Synara Rillo
Médica Veterinária



dirce Maria Corrêa de Souza
em

Nóssa enquanto eu lia os comentários de vcs q foram colégas de estudo veterinário, eu me arrepeiava com vossas palavras de seus escritos.Vcs são maravilhosas,que muitos sigam seus exemplos.Um grande bjo



synara
em

Oi Dirce. Obrigada pela participação no site.
Abraço fraterno.
Synara Rillo
Médica Veterinária



Silvia Marques bekman
em

Você hoje me deixou um pouco mais em paz comigo mesma. Há dez anos atrás denunciei uma farra do boi e quase tive a minha casa invadida pelos “farristas” e foi uma das piores sensações que eu já tive. A própria polícia estava do lado desse bando de sei lá o que e fui por muito tempo mal vista pela dita comunidade. Acho que o seu relato conseguiu externar o que eu não consegui.



Synara
em

Oi Silvia. Pois é Silvia, algum tempo atrás a farra do boi era bem mais pesada. Hoje já me parece haver uma consciência um pouquinho maior por essas bandas, mas ainda há os boçais nativos que seguem ameaçando os que são contra, são dignos de piedade, mas a punição a essa ignorância virá, nem que seja de cima – de Deus. Me sinto contente que pude me expressar por ti.
Abraço fraterno
Synara Rillo
Médica Veterinária


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